Atemporal

A biografia humana se divide em câmaras isoladas pelas paredes do tempo. Nossa memória está presa ao período em que vivemos. O aquém é o que nos contam de um pretérito que não testemunhamos; o além são as suposições e as fantasias sobre o que gostaríamos de viver. O passado e o futuro que ficam fora do nosso alcance são ficções que idealizamos. Atente, quando seus olhos começarem a percorrer o próximo parágrafo desta página, quando sua mente erguer as cenas e os personagens que aqui vão inscritos, a narrativa dominará a sua consciência, ela será real.

Destroços

Quando abri a cortina, os raios de luz da manhã de outono invadiram o quarto, bárbaros conquistando um território inexplorado. Estico o corpo e as juntas estalam secas na dissipação da preguiça. Respiro fundo. Tudo igual num dia que será, provavelmente, idêntico ao anterior. Desde que o vírus alcançou o Rio, a rotina me remetia ao filme “Feitiço do Tempo”, em que o personagem de Bill Murray estava obrigado a reviver sem cessar todos os acontecimentos de uma mesma data.

J’accuse

Há pouco, terminei de assistir ao filme O Oficial e o Espião (J’accuse), do Polanski. Na minha modestíssima opinião de cinéfilo amador, o filme é um marco para o tempo em que vivemos.

Vento Leste

Você pergunta se não me sinto só? O objetivo é esse, ficar imerso na solidão absoluta. Para não me acusarem de exagero, desço uma vez à cidade de dois em dois meses para sacar dinheiro, comprar mantimentos não perecíveis, vender alguns produtos orgânicos e deixar para oferta o artesanato que crio. Acredite, isso já basta para me lembrar da sensação sufocante que predomina naquilo que chamamos de civilização. Civilizados são os bárbaros domesticados e camuflados no eufemismo léxico.