Táxis à deriva, uma história da covardia

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Acordei bombardeado pelas notícias que narram mais capítulos de maldades do governo Bolsonaro, sempre apoiado pelos seus robôs virtuais e cidadãos guiados por infantilismos políticos. Lembrei-me que a primeira grande demonstração do poder destrutivo das Redes Sociais aconteceu contra os taxistas. Foi contra eles que se inaugurou um maciço discurso de ódio, uma vingança movida por ferozes autômatos digitais disparados sobre uma classe inteira de operários do volante. Sem sindicatos organizados que facilitassem a reação, algumas vezes os taxistas também revidaram pelo ressentimento, pelo desespero de pressentirem o próprio ofício ameaçado por uma multinacional que hoje vale mais de 80 bilhões de dólares na Bolsa de Valores americana. Taxistas são trabalhadores autônomos, estavam habituados a concorrer com outros trabalhadores autônomos regulados rigidamente pelo Estado. De repente, foram jogados ao mar dos tubarões estrangeiros, sem proteções ou regras que permitissem uma concorrência justa. O táxi foi vítima da covardia dos políticos e das prefeituras.

Jornais, como O Globo, no Rio de Janeiro, pautaram todos os seus colunistas para que redigissem artigos tendenciosos, praticamente um abraço de boas-vindas ao aplicativo gringo que chegava para “melhorar o serviço” de transporte individual e exterminar a “prepotência monopolista” dos motoristas de táxi. As colunas desses jornais romperam semanas consecutivas num dos maiores linchamentos morais jamais visto na imprensa brasileira contra uma categoria profissional. Em paralelo, o Judiciário concedia liminares que liberavam o Uber para atuar sem qualquer fiscalização, incluindo na sentença expressões igualmente tendenciosas que enxovalhavam motoristas de táxi de forma genérica e pejorativa. Numa espécie de efeito Lava-Jato, imprensa e Justiça se uniram para interferir no poder executivo e legislativo, favorecendo multinacionais e desapropriando os taxistas.

Durante o enfrentamento, os taxistas erraram. Pela ambição pobre de se tornarem políticos, muitas lideranças se desviaram da missão de construir uma resistência política, de tornar a categoria coesa e unificar os sindicatos. Diante de uma classe fragmentada, em que muitos apoiaram Bolsonaro, o principal fiador da desregulamentação dos táxis, a maioria das candidaturas naufragou. Taxistas desperdiçaram tempo ao procurarem Sérgio Moro, hoje ministro de Bolsonaro e sintonizado com sua política ultraliberal; se perderam em protestos mal conduzidos que eram usados contra eles na mídia; se dividiram mais do que se uniram. Não faltaram avisos dos nomes mais sensatos da classe alertando para os equívocos cometidos. Porém, não faltou desprezo pela voz da razão.

No Rio, não se pode dizer que o Crivella não fez nada, mas é possível afirmar que fez quase nada. Tocou e lançou o Táxi Rio, o aplicativo exclusivo dos táxis, mas não ousou regulamentar, com a mesma rigidez dos táxis, vans e ônibus, os aplicativos que usam carros particulares para transporte. Estima-se que já são mais de cem mil motoristas cadastrados em plataformas digitais que usam veículos de placa cinza para serviço de táxi, inclusive fazendo livremente lotada em opções como “Uber Juntos”, num arremedo das Vans, que são severamente fiscalizadas. Aeroportos e rodoviárias das grandes cidades sofrem com o congestionamento em suas áreas de embarque e desembarque. Provavelmente, a poluição e outros elementos que prejudicam a qualidade de vida deram um salto nos índices de monitoramento. Um estudo realizado pela COPPE/UFRJ foi completamente ignorado pelos meios de comunicação, cabendo só uma nota irrelevante na coluna do Anselmo Gois, por sugestão deste jornalista que aqui escreve.

Os táxis estão à deriva e afundando. Fazem ponto em qualquer esquina, porta de padaria, centro espírita, terreiro de macumba, igreja, entrada restaurantes, quitandas e fachadas de supermercado. Os passageiros de “maçaneta” (aqueles que sinalizavam com os dedos nas ruas) estão desparecendo. Sobrevivem com dificuldade as cooperativas conveniadas com grandes shoppings. Muitos taxistas, desiludidos com a possibilidade de alguma ação que discipline os aplicativos em curto prazo, desistiram da profissão e agora engrossam a quantidade de empreendedores individuais que tentam subsistir da maneira mais honrada possível num país que está se agarrando à miséria e ao desalento.

No data de nove de julho, surge uma matéria no jornal O Globo em que Bolsonaro sanciona uma lei contra a pirataria no transporte remunerado. É complicado entender essa bandalheira política quando a pirataria foi consagrada justamente no momento em que autorizaram o serviço de transporte remunerado por aplicativos em carros de placa cinza quase imunes à fiscalização.

O GLOBO

Basta uma pesquisa preguiçosa pelo Google para nos depararmos com consecutivos escândalos envolvendo aplicativos de transporte individual privado. São casos de estupro, assédio, má conduta profissional e controle relapso sobre motoristas cadastrados nas plataformas. Motoristas de aplicativo estão sendo assassinados, roubados e a repercussão na grande mídia é mínima. Além disso, o Uber e outras corporações estão fundamentando o trabalho sem direitos; é um avesso do início da Revolução Industrial, não oferecem nenhum vínculo empregatício, deixam para o trabalhador arcar com o ônus dos meios de produção e cobram um tributo de quem presta o serviço. O mesmo indivíduo que pensa economizar ao entrar num carro a serviço da Uber ou de outras empresas estrangeiras está financiando a descarada exploração de mão de obra composta por desempregados que não compreendem que estão sendo conduzidos a um prejuízo ainda maior. Cavam com as mãos a funda sepultura de qualquer relação de dignidade com o trabalho.

4 comentários

  1. Minha empresa precisa seguir diversas regras e leis para funcionar, fiscalização constante.
    Essas multinacionais ignoraram tudo, com o apoio($$$) do Legislativo, Executivo e principalmente JUDICIÁRIO.) Compraram “tudo e todos!
    A categoria dos taxistas foi massacrada. Qual será a próxima vítima?
    Excelente texto !

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  2. Nunca vi tamanha covardia com uma classe igual o que acontece com essa guerra Uber x taxi !
    É tamanho o descaso das autoridades ,que a nova lei anti pirataria classifica vans de lotação e escolares desrregulamentadas como ” abuso contra os legais ” e a Uber sendo 1 milhão de vezes pior como coisa certa !
    Ridículo …O que fazem com os taxistas é realmente desumano ,chegando a ser maquiavélico e irracional !

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