Diabetes

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— O SENHOR ESTÁ DIABÉTICO.

Três semanas depois, a sentença do médico ainda soava como um sino eclesiástico. A notícia, ao invés de conduzi-lo à moderação dos arraigados hábitos ditados pela gula, despertou-lhe uma rebeldia feroz. Tornou-se relapso. Atrasos e constantes negligências causaram a demissão do emprego que o sustentava há dez anos numa vida confortável. Comemorou a entrada no período sabático.

Diabetes, resultado de uma voracidade indiscriminada. A glicose invadira seu sangue como uma horda de bárbaros ansiosos por inundá-lo de uma selvagem doçura insalubre, todos dispostos a impor novas leis à sua alma. Diabetes, essa maresia de açúcar que corroía seu corpo de dentro para fora. O deleite dos seus excessos dionisíacos agora queria condená-lo à castração do apetite.

– Jamais – ele pensava.

Osvaldo não tinha vergonha da silhueta avantajada, caminhava trôpego e determinado pelas vespertinas calçadas incandescentes do verão de Copacabana. Não se considerava um homem obeso, via-se como um personagem de grandes estruturas. Desempregado e com a conta bancária fortalecida pela indenização trabalhista, arrastava-se quase todos os dias em penosas jornadas gastronômicas.

– O que não mata, engorda – ele respondia quando o alertavam sobre a sua enfermidade.

– Você quer morrer, Osvaldo? – Bradava a esposa.

Quando prevalecia o cansaço, encostava a barriga no balcão de um botequim, pedia um cafezinho e uma provinha da rabada. Impressionava-se ao perceber como tudo havia adquirido mais sabor após o diagnóstico da diabetes. O doce, docíssimo; o salgado, picante. O mundo iluminou-se num palco de delícias potencializadas. E a sede? Uma sede constante, insaciável, que levava tempero até ao mais insípido copo d’água.

Desertor do sexo, Osvaldo encontrou na constante e urgente necessidade de urinar uma nova modalidade de orgasmo. Sim, a diabetes para ele se resumia nisso, o prazer pela ânsia dos excessos. A situação fazia com que recordasse um filme que havia marcado suas experiências de cinéfilo: Despedida em Las Vegas.

Não, ele não abandonaria os caprichos do paladar, mas mergulharia nas profundidades do vício. Antes a vida plena, mesmo curta, do que uma reles existência amputada.

– Minha glicose está a 500 – confidenciou para Ribeiro, um velho português, dono de um dos botequins que frequentava.

– Cuidado com onde mija, capaz de chamar formiga – Ribeiro não o poupava da ironia lusitana.

Formigas… aquela imagem fixou-se na mente de Osvaldo. Insetos em comboio buscando quitutes, farelos, restos para estoque e posteriores banquetes. Formigas, incansáveis estivadores culinários que tinham como única preocupação abastecerem-se de comida. Ele imaginou o quanto seria feliz como formiga. Talvez numa reencarnação, quem sabe? Não uma formiga esbelta e ligeira, mas uma saúva robusta e com privilégios na cota de refeições.

Supõem os vizinhos do apartamento em que ele morava, que a inusitada obsessão por formigas culminou em suas extravagâncias. Osvaldo comprou uma espécie de aquário, encheu de terra e fez dele um criadouro desses insetos que recolheu pelas praças do bairro. Alimentava o formigueiro diariamente, havia se convencido que suas crias guardavam predileção por quindim, o filé mignon da colônia que sustentava. Ele os comparava como ricas barras de ouro, quindins amarelos, brilhantes e escondidos em sua geladeira particular. Quindins que comia e dava de comer. Os quindins eram a interseção, a comunhão entre ele e o criadouro de formigas.

A esposa começou a se desesperar, o marido só saía de casa para voltar horas depois com grande quantidade de sacolas cheias de compras do supermercado. Armazenava os farnéis num freezer que mandara instalar no quarto em que passou a ficar recluso. Osvaldo erguia seu próprio formigueiro em torno do formigueiro que mantinha. Olhava-se no espelho e via a pequena cabeça coroando um corpo gordo e esférico. Dois círculos dos quais brotavam seus atarracados braços e pernas. Não era difícil ver-se como formiga, nem tanto uma saúva, assemelhava-se mais a uma formiga vistosa e bem nutrida.

Galetos, pizzas, esfirras, hambúrgueres, pasteis, batatas fritas, sorvetes, refrigerantes, etc. Cada iguaria que ele degustava era compartilhada com o formigueiro. Ao lançar os petiscos no pequeno aquário, gostava de ver as formigas em frenesi, excitadíssimas, atirando-se irrefreáveis sobre a isca suculenta, vítimas da gulosa sofreguidão de uma fome ancestral.

Não havia culpa naquela volúpia e a esganação tinha sua beleza. Definitivamente, as formigas o compreendiam, não o censuravam, apenas se entregavam ao bufê silencioso, roçando as minúsculas antenas entre si, numa felicidade épica. Osvaldo comovia-se observando o ritual enquanto também abocanhava um naco de queijo prato.

Dona Nini, a esposa, preocupava-se vendo o comportamento isolado do companheiro. Nas poucas vezes que saía do quarto, Osvaldo deixava vazar um cheiro azedo que impregnava o apartamento. Pálido, desgrenhado, língua embolada, se recusava a consultar o médico. Invariavelmente, com um sanduíche de pernil numa das mãos e um copo de fanta laranja na outra, ele cozinhava quatro ovos e os carregava para o seu recanto peculiar.

– Bom dia, Dona Nini. Como está seu Osvaldo? – Perguntava Castro, o porteiro.

– Ele está se matando e quer que as formigas sejam cúmplices.

Nessa altura, todos do prédio já conheciam as excentricidades de Osvaldo, que ganhou dos parentes e amigos o apelido de Tanajura. Por mais que alguns insistissem na tentativa de socorrer Dona Nini, absolutamente ninguém conseguia conversar com Osvaldo Tanajura. Ele exilara-se com suas formigas na solidão das especiarias.

Tocava no vidro do viveiro e grunhia alguns sons ininteligíveis. Boca seca, já não conseguia falar, pois a doença lhe suprimia a saliva. Faltava o ar. A vista embaçada, as mãos vacilantes. Não bastava mais alimentá-las, ele queria ser formiga. O peito doía. Num derradeiro gesto que os seus sedentários músculos permitiram, lançou o aquário ao chão, a terra espalhou o redemoinho de insetos e Osvaldo deitou-se sobre eles. De súbito, arrombaram a porta do quarto para acudi-lo. Tarde demais, Dona Nini o encontrou estático, com um sorriso discreto, o semblante sereno e saciado, olhos amarelados e pele descolorida. Misturado às formigas, num abraço antropofágico, Osvaldo entregou-se à única força capaz de resignar todo e qualquer pecado: a morte.

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