O Bordel

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Nunca entendi com clareza os cálculos das políticas econômicas no Brasil quando praticadas por neoliberais, tomam ações que empobrecem o país, aleijam o poder de consumo, nivelam salários por baixo, mas ao mesmo tempo prometem prosperidade. Perdia-me nesses pensamentos inúteis no meio da tumultuada Rua Uruguaiana, no Centro do Rio. Flanava ao fim da tarde, driblando camelôs e corpos humanos que se arremessavam velozes no sentido contrário ao meu. Eu ia em direção à amplitude árida do Largo da Carioca.

Quase na esquina da Rua da Assembleia, um garoto me entrega um folheto e vai me empurrando para o lado esquerdo da calçada.

– Entra lá, entra lá. Dá uma olhada, dá uma olhada. É show, é show – o garoto falava por um sistema de eco que seria peça interessante para o estudo linguístico.

Ao mesmo tempo em que era empurrado, não sabia para onde rumava meu corpo. Avistei uma entrada minúscula que se aproximava, parecia ser a banca de um relojoeiro. Decidi seguir o empuxo causado pelo rapaz sem oferecer resistência. De repente, ultrapasso banca do relojoeiro e enveredo por um portal quase camuflado por detrás dele. O garoto me abandona e, finalmente, posso ler o folheto: “O palácio do prazer”.

No saguão, onde havia sido jogado, observei uma escada de ferro, dessas antigas e não confiáveis. Não me restando outra opção, atiçado pela curiosidade, subi o primeiro lance. À medida que avançava, eu ia mergulhando numa ruidosa penumbra. Quando alcancei o primeiro andar, me vi no meio de uma boate com ares de um legítimo inferninho de beira de estrada. Mulheres jovens seminuas, o som ensurdecedor de um jukebox e uma senhora com jeito de cafetina por detrás de um balcão de bar formavam o quadro do qual eu virei personagem. Não irei bancar o imaculado, fingir que não conheço bordéis, mas fiquei perdido por um momento, ainda perplexo por estar ali, voluntariamente, como um pedaço de bife jogado entre leoas. Aproximei-me do bar e a volumosa senhora atrás do balcão me informou que aquele seria o primeiro dos cinco andares do “palácio do prazer”. Sim, incrédulo leitor, cinco andares dedicados à lascívia, à devassidão. Uma República de Sade encravada no coração do Centro do Rio.

Admiro as prostitutas, respeito-as profundamente. Não é uma opção fácil, como pensam os juízes da vida alheia. É difícil. Mergulhar nesses ambientes noturnos, que são noturnos mesmo sob a luz do sol, é um desafio onde só as mulheres fortes sobrevivem. Sou a favor da regulamentação da prostituição, da legalização das casas de sexo. Não é possível oferecer boas condições de trabalho para essas mulheres sem que elas sejam reconhecidas pela sociedade. Infelizmente, estamos num período da nossa história que, provavelmente, não permitirá que isso ocorra. O projeto de Lei Gabriela Leite traria mais dignidade para uma opção que requer muita coragem, escolha que às vezes é tomada pelo sentimento de desesperança.

– Vamos fazer um sexo? – Meus devaneios sociológicos são interrompidos pela frase súbita de uma morena de topless.

– Ah, querida. Obrigado, mas estou dando uma olhada.

– Vem me olhar dentro do quarto, vem – prostitutas são pragmáticas, gosto disso.

Acuado, preferi alegar que ia conhecer os outros andares e me retirei de fininho. Subi outro lance da velha escada e cheguei ao segundo piso. O cenário se mostrava-se como um clone do andar anterior. Mulheres quase despidas, som alto vazado do jukebox e outra coroa rechonchuda por trás do balcão de um bar improvisado. Reparei que as meninas daquele pavimento pareciam mais bonitas e menos ansiosas. Leoas que rondavam sorrateiras, como se preferissem selecionar a presa.

– Queria uma coca-zero, por favor – pedi a coroa do bar.

Houve um silêncio, a senhora me olhou por alguns segundos, como se analisasse um espécime exótico e incômodo dentro daquela selva que se guia por regras incorruptíveis.

– Tem cerveja – responde sem floreios.

– Não tem coca-zero? – Insisto.

– Tem cerveja – Sim, bordéis são as melhores escolas do pragmatismo.

– Tem água? – Busco uma opção.

Terminei de fazer a pergunta e uma garrafa de plástico de água mineral, amassada pelo congestionamento do freezer, surgiu diante dos meus olhos. Dei um gole. Uma loira de corpo esguio e longos cabelos num penteado rastafari sopra palavras na minha nuca.

– Com tesão, amor?

Giro o pescoço retesado pela tensão, não pelo tesão, sem saber como responderia àquela abordagem.

– Dando uma olhada – repito a cartilha.

– Então, deixa eu te mostrar a casa – ela desmonta a cartilha.

– Onde fica o banheiro? – Tento ganhar alguns segundos para bolar um plano de fuga.

Um dedo recoberto de anéis aponta para a porta ao fundo do salão. Quando entro no referido toalete, percebo que é unissex. Duas moças com seios à mostra e um rapaz dividiam o pequeno espaço. Foi quando me dei conta de que tudo naquele lugar era insalubre, um ambiente fechado, sem ventilação, um banheiro precário… Senti uma tremenda compaixão por todas aquelas garotas porque enxergavam naquele universo a melhor forma de sobrevivência. Retornei ao salão e permiti que a loira de rastafari me apresentasse ao que mais interessava a ela me mostrar, as alcovas. Não sei se a minha descrição formará a imagem na sua mente, os aposentos destinados ao sexo eram baias separadas por divisórias de madeira que não tinham teto, a parte superior era aberta, num intercâmbio sonoro com a pista da boate. Privacidade frágil. As dimensões minúsculas do suposto quarto só permitiam um colchão de solteiro acomodado sobre um suporte de concreto, um lençol de higiene suspeita o cobria. Tumbas da luxúria. Um drinque no inferno, do Tarantino, teria sido mais eletrizante se filmado naquelas instalações.

Comecei a me sentir claustrofóbico. Interrompi a intenção de desbravar os outros andares. Desci afoito os degraus, cruzei com o olhar esfíngico do relojoeiro que disfarçava a entrada do randevu e ganhei o oxigênio purificador das ruas.

Definitivamente, mulheres da vida são metamorfoses da força feminina, transmutando o sêmen na prata que as sustenta. Amazonas que resistem diariamente às sombras frias do covil. Lutam para não se petrificarem. Existem sem existir, oferecendo o prazer desejado e renegado por quem as procura. Prostitutas são segredos que guardam segredos, são revelações que a pouca luz evita revelar. Beco obscuro dos homens.

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