Um almoço com Machado de Assis

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Prensa usada na litografia.

A mais intensa biografia sobre Machado de Assis continua sendo a de Lúcia Miguel Pereira, escrita nos idos de 1930. A autora teve a valiosa oportunidade de entrevistar algumas pessoas que mantiveram contato direto com o bruxo do Cosme Velho. Costura com maestria as correlações que unem a história do escritor ao contexto de sua obra. Certamente, fica mais fácil decifrar Machado lendo Lúcia Miguel Pereira, que com sensibilidade e empenho nos apresentou o sujeito oculto. Mas a abertura burocrática deste texto não terá muita afinidade com o conteúdo a seguir, que desenhará as linhas de admiração que Machado de Assis, um escritor do século 19, continua a despertar no século 21. Não só admiração, mas os pontos de contato entre dois tempos distintos, ecos do passado que ainda reverberam através das transformações de um país.

O Rio de Janeiro de Machado não existe mais. Salvo algumas construções, monumentos históricos, locais como o Real Gabinete Português de Leitura (onde Machado muito se instruiu), a maior parte do Rio colonial foi soterrada pelos anos e pelo progresso da cidade. Vemos sombras ancestrais rarefeitas pelo Centro da Cidade, em ruas mal conservadas, sobrados decrépitos e placas que indicam antigos endereços do autor de Memórias Póstumas. O Rio imperial fascina tanto quanto Machado de Assis, talvez por ser uma imagem distante que soa quase tão ficcional quanto os romances que retratam aquela época e seus personagens. Cidade que hoje só conhecemos por fotos em preto e branco, que mesmo assim exalam a beleza avassaladora do cenário.

Alguns afirmam que o bom Joaquim Maria nasceu escritor, mas nós poderíamos dizer que nasceu mito (quando mitos se justificavam pelo grau de humanidade), com aquele rosto antigo (como descreveu Drummond), a barba imponente e o pincenê que guardava mais nobreza do que um legítimo título nobiliárquico. Machado de Assis brotou na vida como um busto em bronze, construiu-se para ser imortal. Garoto mulato do morro do Livramento, um autodidata com educação formal frágil, vendedor de balas em São Cristóvão, coroinha de igreja, tipógrafo, jornalista, funcionário público de carreira, gago, tímido, epilético e por fim autor universal. Muitas vezes, a imagem que surge de Machado é a de um homem frágil e doente, mas sua trajetória revela um gigante incutido de uma prodigiosa determinação.

Ler sua biografia não nos revela a bravura e a obstinação diária que a jornada até o topo da montanha deve ter exigido dele. Surpreende-me que os neoliberais tupiniquins não usem com mais frequência a vida de Machado de Assis como exemplo maior do conceito de meritocracia que tanto apreciam propagar para ponderar as desigualdades sociais. Machado, certamente, é uma exceção das mais raras, a prova disso mostra-se na edição quase única que ele representa no universo dos que ascenderam social e intelectualmente em condições semelhantes àquelas em que ele estava inserido.

Leitor obsessivo de jornais, sua produção literária é descomunal, transitou em todos os gêneros. A escalada de Machado é, provavelmente, fruto da convergência entre esforço e sorte. Difícil acreditar que fosse tímido um homem que criou inúmeras relações com o melhor da aristocracia carioca do segundo império. Talvez, um sujeito reservado, mas o propagado acanhamento é improvável. Ser escritor num período histórico em que cerca de 80% da população era analfabeta, quando nem o total dos outros 20% possuíam a capacidade de entender textos mais complexos, se resumia a exercer um ofício voltado para uma elite minúscula de privilegiados. É nesta hostil ilha temporal que Machado de Assis desponta. Apesar da adversidade às letras, o Rio do século 19 cultivava nichos culturais como a Livraria Garnier e a Livraria de Paula Brito, na qual trabalhou no início da sua estrada literária. 

É inevitável perceber a influência inglesa, sua proximidade óbvia com Sterne, comunhão que poliu seu brilho natural. Aspecto que também fascina é a vida serena  e equilibrada que alcançou ao lado da portuguesa Carolina, que foi sua benção em vida e ruína espiritual na morte. Há também os pecados, ao se casar Machado se afastou de Maria Inês, a madrasta que tanto fez por ele, que tanto contribuiu para que desse o primeiro salto.

Há um episódio íntimo do qual Coelho Neto se confessou testemunha. Depois de casado, Machado só voltaria a rever a madrasta em seu velório. Ali, em frente ao corpo, se descontrola e chora, revelando a Coelho Neto que estava enterrando sua mãe. Temos este outro Machado, o obscuro, que parece ter se esforçado para apagar qualquer rastro que levasse à sua origem humilde, que descortinasse seu passado de menino do morro. Manuel Bandeira o acusa de ter se aburguesado, de ter almejado com ferocidade tornar-se um burguês. Crítica inócua a do poeta, pois não há demérito no fato de Machado haver ingressado no conforto manso da burguesia, pelo contrário, foi sua grande virtude. Machado, um mulato de origem pobre, com pouca educação formal, rompeu a parede de uma sociedade de castas, escravocrata e racista através da arte. Afronta camuflada em respeito. A única opção que restou à elite monárquica e republicana foi abraçá-lo numa tentativa doce de assimilação.

Não faltaram mãos que se estenderam ajudando Machado a galgar degraus. Colecionando afetos de uns e caindo nas graças de outros, o jovem Joaquim Maria foi ganhando espaço na imprensa, na literatura e no serviço público. Espaço que nunca desperdiçou, mas que utilizou com avidez, numa produção tão intensa que talvez por isso a qualidade soasse irregular no seu começo.

Inevitável que Machado de Assis devesse gratidão a muitos que cruzaram seus passos e lhe suavizaram a caminhada. Por esse motivo, quando me deparei com o conto “Um almoço”, fiquei extasiado diante da narrativa preciosa, de humor tão vivo que consegue nos provocar gargalhadas. O conto aborda a relação entre dois amigos, Germano Seixas e José Marques. José esbarra com Germano perambulando sem rumo pelo Passeio Público, abatido, faminto e à beira do suicídio. Descobre que o amigo estava mergulhado em absoluta penúria financeira. Oferece-lhe um almoço para aplacar a fome do momento e ajuda na restauração da dignidade ao encaminhá-lo para um bom emprego. A princípio, Germano se mostra gratíssimo, prospera e acaba por herdar a loja do patrão. Torna-se um burguês e aí a história cai numa reviravolta, é José que entra no padecimento de necessidades e Germano passa a demonstrar repulsa pela obrigação de ser grato. O ônus da gratidão vai gerando em Germano um desprezo incontrolável por José Marques, ao ponto de considerar o outrora amigo e salvador um dos homens mais insuportáveis que conheceu.

O conto nos força a cogitar se Machado possa ter nutrido antipatia pela gratidão quando atingiu o ponto mais alto de sua existência. “Um almoço” é obra-prima, com as magníficas nuances psicológicas de personagens que se entranham em nossa mente durante a leitura. É perturbador por ser tão vigorosamente realista e hilário devido ao mesmo realismo. Composição de um gênio que traduzia experiências humanas num imaginário que nos reflete de forma implacável. É incrível que um realismo tão apurado tenha surgido num escritor que chegou a renegar o realismo de Eça de Queiroz e Zola. Em Machado, muitas vezes basta a leitura de um conto como esse para compreender a sua eternidade como artista.

Fecho esta dissertação, não mais com a burocracia do seu início, mas com o sentimento desmedido de quem quer revelar gratidão por um operário da palavra que nos legou páginas que nos traduzem e trazem deleite à alma, alma muitas vezes perdida no caos de um mundo submerso em hipocrisias. Gratidão que anuncio e assumo sem receio de ser piegas.

Peço desculpas ao mestre por este derramamento emotivo, sei que ele não aprovaria, mas é preciso agradecer. Entre nós, breves adjetivos e advérbios, foste sempre a simplicidade do superlativo humano, o melhor de uma terra que já não faz jus a qualquer grandeza. Obrigado, Machado de Assis.

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