A Praça dos Cavalinhos

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Praça Xavier de Brito

A famosa Praça dos Cavalinhos, que poucos chamam de Xavier de Brito, faz parte da marca do tijucano, da mesma forma que a Quinta da Boa Vista é um patrimônio da história do carioca. Quantas gerações escreveram algum capítulo inesquecível sob as árvores centenárias que rodeiam o velho chafariz francês da praça que é uma ilha idílica marcando fronteira entre a Tijuca e a Muda.

Nascer num bairro como a Tijuca e atravessar a existência nele é criar extensões que se confundem com a própria alma. Parte do meu arquivo espiritual está sentado num daqueles bancos da pracinha Xavier de Brito, andando de bicicleta, correndo em volta do chafariz ou passeando numa charrete puxada por um pônei que só habita hoje nesta página que viaja pelo tempo. Podem contestar, mas não conheço praça no Rio mais bela e conservada do que a Praça dos Cavalinhos, não descobri luminosidade que se compare à luz que se reflete pelos galhos daquelas árvores anciãs. Se você nunca experimentou, vá numa hora qualquer, entregue-se à vadiagem, sente-se ou caminhe pela manhã ou num fim de tarde… Garanto que não encontrará deleite maior, que valorize mais a simplicidade de contemplar embriagado de encanto o privilégio do momento presente. Permita-se.

Enquanto algumas praças da Tijuca foram destruídas, se tornaram áridas ou inseguras (como a Saenz Peña, a Varnhagen e a Afonso Pena), a Xavier de Brito resiste. Impossível afirmar que não tenha problemas, que não haja brinquedos quebrados no seu parquinho e que à noite situações esquisitas não pairem no ar. Por muitos anos, uma cabine da PM permaneceu instalada no centro do terreno, mas foi retirada para sempre e por misteriosas razões que nenhum governo explicou com clareza.

Não está isenta dos riscos urbanos que assolam o bairro, mesmo que seja frequentada por muitas crianças e até bebês. Faz pouco tempo que um rapaz, trabalhando como garçom, levou um tiro de fuzil há poucos metros dali, no Bar do Pinto, na esquina da Rua Otávio Kelly com a Conde de Bonfim; mais recentemente, um jovem de 18 anos foi alvejado por bala perdida em frente ao extinto Carrefour. Tragédias que ficam tatuadas a sangue em todos nós. Por falar nisso, como aquele prédio imenso do Carrefour pode permanecer abandonado? Prefeitura, Governo do Estado, para que são eleitos se demonstram somente a descarada inapetência?

Cada vez mais vivemos de memória, nos escondemos nas recordações, nos refugiamos na irrealidade nostálgica e doce das boas lembranças. Recordo-me dos muitos casarões em estilo colonial que preenchiam a minha visão pelas vias tijucanas; agora, vejo poucos, desaparecem enterrados sob prédios insossos que se erguem como paredes.

São incontáveis as ocasiões em que passei numa pequena bicicleta pela Xavier de Brito. Onde atualmente funciona uma loja de pets, tinha uma oficina que consertava as magrelas, era onde eu calibrava os pneus da minha. Quem nunca montou num daqueles cavalos que estacionam ali nos fins de semana? Quem nunca levou os filhos para correrem e se esbaldarem no chão arenoso daquele paraíso? Quem nunca foi criança observando com curiosidade uns bichinhos parecidos com peixes que nadavam no laguinho do chafariz? Quem nunca olhou deslumbrado para o Sumaré e a imponência da floresta se derramando morro abaixo. É um consolo saber que ainda existe uma praça tão poética na Tijuca, é um alívio confirmar que essa parte da alma não nos foi amputada. Poder sentar-se, caminhar e respirar naquele pequeno santuário nos faz acreditar em algo bom, revitaliza um pouco a esperança.

Nossa alma é composta por muitos elementos, dentre essas partes estão os lugares especiais que parecem nos pertencer e que às vezes fazem parte do afeto coletivo. Enquanto eu mantiver a certeza de que posso pisar na Praça dos Cavalinhos, um lado do meu coração baterá com mais intensidade e a criança nunca esquecida dentro de mim irá sorrir cheia de energia, pronta para pedalar novamente.

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