Ouro Branco: a peça

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Elenco (foto Renan Yudi)

Fui assistir à peça Ouro Branco, escrita pelo meu amigo André Ladeia. Está em cartaz no Teatro Cândido Mentes, no coração de Ipanema, um espaço aconchegante que, às vezes, não me parece muito conhecido pelos cariocas. É a estreia de Ladeia como dramaturgo e ele não fez vexame em seu primeiro texto para os palcos. O mais gratificante para mim foi acompanhar as primeiras manifestações de interesse do autor pela  confecção da dramaturgia e testemunhar o nascimento da sua primeira montagem. A história dessa peça é um valioso registro do empreendedorismo de um autor que não abriu mão de materializar seus personagens e o enredo que desenvolveu. Um desafio hercúleo que não se resume apenas ao capital para montar uma peça, que já é um obstáculo penoso no Brasil; mas André superou o desafio e atingiu sua meta, principalmente, pelas suas melhores virtudes e pelo desejo de abrir um novo caminho para expressar sua paixão pela arte e pela palavra. Para um cidadão consciente, bastaria a leitura dessa introdução para reservar um assento e comparecer à encenação na próxima semana.

O espetáculo possui temática original e excelentes atores. Destaco Charles Paraventi e Hilton Castro, que dominam a cena encarnando os dois procuradores veteranos, demonstrando uma sintonia invejável e completo domínio do humor sutil que permeia o texto. Até pequenos papéis acabam ganhando destaque, como o personagem do subprocurador interpretado por Eduardo Gentil. Além desses, completam o timaço de Ouro Branco o poderoso talento do jovem ator Ícaro Galvão e da beleza expressiva de Juliana Azevedo, que ilumina o purgatório como um anjo que traz ilusórias boas notícias a cada entrada no palco. A direção de André Gonçalves faz do espetáculo um relógio suíço preciso e eficiente, sem abrir mão da criatividade na caracterização dos atores e potencializando o tom de humor surrealista que transpira em muitas cenas. Sem dúvida, Gonçalves revelou-se um maestro sensível e afinadíssimo com a ideia do autor.

Toda a história se passa dentro de uma repartição pública, cujo magnífico cenário de Marcos Flaskman conseguiu imprimir a força de um purgatório claustrofóbico. Por sinal, a cenografia de Marcos Flaskman é um destaque da montagem, a repartição quase toma o vulto de um personagem silencioso dentro do contexto.

Cenário (foto Alexandre Coslei)

Os personagens caracterizados com aparência cadavéricas, em maquiagem de rostos pálidos, foi uma ótima sacada. A interação se dá, na maior parte do tempo, entre os personagens Henriquez, Rodrigues e um jovem funcionário. Além desses, surgem em aparições ocasionais a personagem Nara e um subprocurador. Enfurnados numa pequena sala, o grupo discute as agruras do serviço público, suas injustiças, a burocracia incontornável, as restrições impostas por regras que não se justificam, a ausência de perspectivas e as vantagens que alguns recebem através do velho hábito do “pistolão”. Apesar disso, os servidores descontentes resignam-se, dobram-se ao sistema, aceitam a falta de horizontes, tudo pela estabilidade profissional e pelo salário certo. Em meio a esse enredo, tramas são engendradas, fofocas emergem com picos de maldade e um bombom é revelado como a Caixa de Pandora da história humana.  A cada cena, cresce a impressão de que os personagens vão se tornando sucatas de gente, insatisfeitos e impotentes.

É inevitável chegarmos ao fim do espetáculo com uma boa dose de empatia por aquela turma de servidores públicos, ao mesmo tempo em que tentamos fugir da antipatia por nós mesmos: brasileiros que reclamam, mas se conformam enquanto puderem proteger a própria zona de conforto.

Assistir a Ouro Branco é necessário.


Teatro Cândido Mendes (Rua Joana Angélica, 63)

Sessões às quartas e quintas, 20h. Ingressos: R$ 50(inteira), R$ 25(meia)

Ficha técnica:

Dramaturgia: André Ladeia
Direção: André Gonçalves
Elenco: Charles Paraventi, Eduardo Gentil, Hilton Castro, Ícaro Galvão e Juliana Azevedo.
Assistente de Direção: Freddy Ribeiro
Produção: Carolina Kezen
Cenografia: Marcos Flaksman
Iluminação: Aurélio de Simoni
Figurino e pintura de arte: Bidi Bujnowski Visagismo: Nathalia Cavalcanti
Fotografia: Renan Yudi
Trilha sonora: Paula Raia e Fellipe Mesquita

Direção de movimento e preparação vocal: Bel Machado
Designer: Aron Costa
Assessoria de Comunicação: Roberta Mattoso
Participação especial: Anselmo Vasconcellos

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