Lições do jornalismo servil

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Foram dois eventos recentes que nos obrigaram a enxergar a realidade assombrosa sobre o jornalismo brasileiro. A primeira constatação ocorreu em 2015, quando a multinacional Uber entrou no Brasil patrocinando uma campanha feroz e uníssona contra os taxistas. A segunda demonstração aconteceu em 2016, com a imprensa engajada às forças mais repulsivas e antirrepublicanas da política, na disseminação de uma publicidade perversa contra o governo federal e pelo impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff. Nos dois casos, a mídia facilitou o sucesso de duas ações que acumulam consequências danosas para o futuro da nossa sociedade, cujos efeitos já começam a se manifestar.

No caso do Uber, consolida-se a ideia do trabalho sem direitos e o cultivo de empresas que confessam aversão por laços empregatícios formais. No golpe parlamentar contra a ex-presidente Dilma, ainda estamos acompanhando a implosão institucional do Estado, sua degeneração moral e o vácuo da racionalidade que permitiu a ascensão de uma extrema direita tosca e sombria.

O que há em comum entre dois episódios que parecem absolutamente desconectados? A predominância da vontade implacável do grande capital expandir seus tentáculos eliminando direitos sociais e constitucionais que subtraem o lucro e restringem o controle de poderosas corporações sobre as escolhas da política econômica.

O papel medonho dos jornalistas está na subserviência às pautas ditadas pelos barões que controlam os maiores veículos de comunicação do país. É uma postura humilhante, mesmo que se justifique pela necessidade do emprego e da sobrevivência. O comportamento servil daqueles que deveriam zelar e lutar pela independência do pensamento e da imparcialidade na interpretação dos fatos, muitas vezes reflete um jornalismo que se rende como cúmplice voluntário das campanhas de ódio que soterram a missão  de informar todos os aspectos de questões que irão causar impacto direto no cotidiano dos cidadãos. O atual jornalismo brasileiro está muito mais próximo à fraude e à omissão, afastando-se conscientemente da autenticidade que deveria guiar os profissionais da área. Não seria exagero afirmar que a verdade é vista frequentemente pela nossa imprensa como um elemento incômodo a ser contornado.

Em 2015, testemunhamos todos os colunistas do jornal O Globo se deixarem pautar pelo objetivo vil de promover uma empresa estrangeira, de capital privado, que invadia o Brasil revestida pela falácia da tecnologia, mas cuja única intenção é encampar e monopolizar os ganhos da produção dos taxistas, que atuavam como força de trabalho autônoma. Criaram a “máfia dos táxis”, transformaram o taxista no maior vilão de todos os tempos, tudo isso para entregar um segmento de serviço, que sustentava milhares de trabalhadores com dignidade, à ganância de acionistas internacionais.

Em 2016, vimos Dilma também transformada em vilã do universo pelos maiores jornais do país, sendo massacrada e ofendida como mulher, deposta e com seu governo apreendido pelos tentáculos mais insensíveis do mercado financeiro. Usam as mesmas táticas de manipulação da opinião pública e subversão das leis quando almejam potencializar o lucro corporativo.

Que me perdoem os diletantes digitais, mas a evolução não é um conceito que tenha lógica quando se liga à degradação social. Porém, é necessário reconhecer que a tecnologia nos trouxe uma maliciosa armadilha, explora severamente uma nova geração de mão de obra sob a ilusão de que democratiza oportunidades.

Um jornalismo corajoso e comprometido com a sociedade nos conduziria a questionar o admirável e desumano mundo novo que está emergindo envernizado por uma modernidade obscurantista. Infelizmente, em nossa terra, os jornalistas concordaram em se reduzir a desprezíveis incubadoras de ogros e vigaristas. A maior lição que o nosso jornalismo nos deixa é que precisamos aprender a pensar além dele e apesar dele.

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