O flagelo literário

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Subversões

Escrever é o flagelo voluntário do desvalido que se tortura com um pires na mão. Na melhor das hipóteses, é assim para a maioria dos escritores. E eu estou aqui, com o pires na mão, para apresentar meu novo livro: Subversões. No entanto, antes de começar essa apresentação, fiquei pensando por que tanta gente cultiva a ambição de ser um escritor popular e reconhecido. Talvez, parte do motivo esteja na aparente perspectiva de que escrever pareça mais fácil, por exemplo, do que ser um pintor, um músico, que são regiões da arte que pressupõem rigor no estudo e na prática para começar. Não se pode negar que muitos supostos literatos levam a escrita no esculacho, seguem a fórmula de pegar um tema da moda, jogam no papel a ideia e prosseguem guiando-se por nichos que consideram propícios ao sucesso imediato. Escrever tornou-se um ofício mais ligado ao oportunismo do que à qualidade da expressão e do conteúdo.

Para usar um clichê como exemplo, cito Machado de Assis, entre grandes escritores do século 19, que até hoje nos serve como parâmetro de formação da literatura nacional. Machado escrevia para uns 20% de alfabetizados da época, escrevia para uma elite minúscula, mas nunca escreveu pelo senso de oportunismo, escrevia para aperfeiçoar seu estilo, para alcançar a excelência da linguagem que conduzia seus contos, crônicas e romances. Machado de Assis estudou e praticou para ser um maestro da palavra. Atualmente, temos 93% de alfabetizados, no entanto fica a impressão de que a qualidade da escrita e da leitura foram proporcionalmente melhores no século 19. Chegando a este ponto, você me dirá que a Bienal vende milhões de livros e eu cometerei uma provável insolência afirmando que o livro no Brasil é capa e status, o miolo só serve para equilibrar o objeto de decoração nas estantes que querem ostentar uma pretensão erudita.   

Ou seja, se você gosta de escrever, se vê na escrita a sua melhor opção para se expressar como artista, prepare-se para um flagelo. Diferente da pintura, da música, do teatro, que são formas de arte que pedem o conforto da contemplação, o bom livro pede o esforço da leitura concatenado com a capacidade de interpretação ininterrupta. Tudo que traz a sensação de esforço tende a soar pouco atraente, a gerar resistência. Um escritor não escreve para ninguém ler, mas é provável que para a maioria deles quase ninguém leia, principalmente se for um anônimo sem destaque social. A literatura contemporânea é muito mais uma vitrine autoral do que interesse pela substância do livro. Não estou sendo amargo, pauto-me pela realidade. Se você não é jornalista da Globo, ator de novela, humorista de destaque, se não ocupa um cargo público relevante, se você não tiver dinheiro para uma assessoria de imprensa das galáxias, contente-se com as migalhas ou com a divina sorte. É óbvio que algum talento ajuda a fazer que você não fique completamente submerso no oceano de anônimos, mas só o talento não salvará sua alma nem a minha. Não se entregue às ilusões, escrever é um autoflagelo e um pires na mão.

Então, depois desse prólogo apocalíptico, estou aqui para cumprir uma das piores partes desse flagelo, exibir meu livro e dizer que fará diferença para o seu pensamento se passar os olhos pelo que vai escrito nele. É um livro com conteúdo, ideias e argumentos, que por acaso também ganhou uma capa provocante. Almejar ser um escritor que enfatiza o trabalho com a linguagem, com a expressão, já faz de qualquer candidato a isso um subversivo, porque obrigará o aspirante a tentar distinguir-se de uma multidão que quer vender somente a própria imagem, constar listas de best-sellers e virar sucesso. Todos nós perseguimos o sucesso, mas são as prioridades na escrita que nos diferenciam. O sucesso dos números não é o sucesso da capacidade intelectual.

Meu livro está disponível, você pode pedir para mim ou comprar pela Livraria Cultura, Estante Virtual e Amazon. Nele você encontrará um conteúdo que pretendeu ser coroado pela linguagem, descobrirá reflexões que desejam o sucesso pelo mérito, não apenas pela farsa oca do marketing pessoal.

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