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De todas as leis da física e da natureza, a única que pode ser corrompida é a lei da inexorável passagem do tempo. O homem pode retornar ao passado através das próprias recordações, pois é feito da memória que constrói o presente com ânsia incessante, até que a morte o interrompa. A nostalgia, por mais que se negue, é uma condição humana. O presente e o futuro são abstrações, um está condenado a ser fugaz e o outro é um porvir imprevisível. O nostálgico compõe sua antologia pessoal e intransferível, revive sentimentos, frustrações e alegrias quando a mente realiza a viagem temporal e impalpável.  Há quem se imprima na memória coletiva pela grandeza da existência e da obra em vida. O mais comum é sermos soterrados pela poeira dos anos, reduzidos a registros que não ultrapassam o afeto de poucos amigos e parentes que também se extinguirão no avançar da jornada. Se a memória subverte o tempo, a morte elimina a memória na maioria dos casos. A história é sempre um mosaico incompleto e enganoso, porque é feita de referências. Temperei muitas reflexões como essa saboreando um café na Av. Marechal Floriano. Na minha cafeteria preferida, eu admirava a paisagem quase imutável daquela faixa da cidade. Uma mudança veio recentemente, os trilhos do VLT atravessaram a pista, uma espécie de ressurreição dos bondes em formato moderno. A região portuária foi a que mais sofreu transformações, a queda do sombrio Elevado da Perimetral e a inauguração do monumental Museu da Amanhã descortinaram a visão infinita do mar, trazendo a luz solar de volta à então decadente Praça Mauá.

Apesar disso, os velhos sobrados continuam por lá, alguns cinzentos e malconservados; alguns coloridos, também malconservados. Se eu fosse fazer uma comparação, ousaria afirmar que o Centro do Rio sofre da doença de Alzheimer, é a nossa memória desprovida de qualquer cuidado. Um velho desamparado que vai sendo carcomido pelos dias. Executam obras de modernização, mas raramente de preservação. Acumula-se à tragédia o caos econômico que atingiu o estado neste fim de década do século 21. Incêndios como o do Museu Nacional, que foi um guardião essencial da nossa história, revela a nossa irrefutável degeneração como país.

Desde criança aquelas ruelas estreitas me fascinavam, a Rua da Alfândega com seu comércio frenético, o verde Campo de Santana com suas cotias inquietas, a Rua Sete de Setembro (onde ganhei como mimo paterno o meu primeiro tabuleiro de xadrez, comprado numa loja de brinquedos extinta chamada Leipzig). Na infância, estar no Centro com meus pais representava uma aventura. Eu via aquele labirinto infinito de ruas e imaginava que talvez nunca aprendesse a me localizar ali.

O coração do Rio de Janeiro, ponto do qual emana a alma e as origens do próprio Brasil. Do Paço Imperial ao velho Largo da Prainha, da Central ao antigo Largo do Rócio. Em algum momento, a vida de todos os habitantes do Rio convergiu para o Centro. Pela Praça Tiradentes, Machado de Assis deixou suas digitais como tipógrafo e frequentador assíduo do Real Gabinete Português de Leitura. No primeiro espigão da Praça Mauá, podemos ouvir o crepitar das máquinas de escrever do jornal “A Noite” misturando-se à voz dos cantores da Rádio Nacional. Os teatros da Praça Tiradentes ainda ecoam a boemia pelos escombros de casebres seculares que insistem em resistir. A Rua do Acre, por onde caminhei todos os dias quando consegui meu primeiro emprego, me faz lembrar de Macabéa, foi na rua do Acre que Clarice Lispector hospedou a triste protagonista do seu romance “A hora da estrela”.  

Atrevi-me na primeira incursão solitária ao Centro quando decidi buscar meu primeiro emprego, embrenhei-me pelo seu traçado complexo entregando currículos e farejando oportunidades. Em diversas ocasiões, necessitando de uma pausa, eu me ensopava em livros na imensidão da imponente Biblioteca Nacional.

Por uma tara inexplicável, eu carregava o desejo mórbido de trabalhar em banco, perdi as contas de quantas vezes subi ao andar de recursos humanos do Banco Mercantil de São Paulo, Banco Econômico, Unibanco, Real e outros. A mão do destino impediu a minha insensatez, mas nem tanto.

Meu primeiro emprego efetivo acabou sendo na área financeira da sede de uma grande rede de varejo que ficava na Rua Sacadura Cabral, Zona Portuária. Quando eu saía das noites de serão no escritório, podia testemunhar a efervescência das boates dedicadas à promiscuidade, o brilho do neon e das prostitutas não economizava na sedução e no chamado ao descaminho. A Praça Mauá cultivava uma vocação que, talvez, ainda retome, nela se concentravam os espíritos extraviados. A força da gravidade daquele pequeno universo libidinoso e toda aquela lascívia improdutiva também me enfeitiçava muito.

Acostumei-me a beber umas cervejas nos fins das tardes musicais da Pedra do Sal; a cultuar a barroca paz monumental do Mosteiro de São Bento, encravado num monte vizinho ao porto desde o século 17; mergulhei nos corpos sinuosos das mulheres livres do cais, que prometiam me guiar pelas fragrâncias perfumadas dos quartos clandestinos dos cabarés. Naquele lugar, havia a consciência nua da brevidade, provavelmente, por isso, era possível sentir a felicidade destilada do momento.

Da universidade dos prazeres mundanos na Zona Portuária, migrei para a aridez frígida da atual Praça Onze. Aprovado em concurso público, fui trabalhar numa estatal erguida à beira do Canal do Mangue. É contraditório saber que a área que já foi berço do samba, zona de meretrício e caldeirão de etnias tornou-se um vácuo urbano entre a Central e a Zona Norte. A Praça Onze carrega a mesma tristeza da Praça Tiradentes, as duas destituídas da identidade original. Passei alguns anos no exílio, habitando esse terreno intermediário que só fervilha durante o Carnaval da Marquês de Sapucaí, até ser transferido definitivamente para a Zona Sul.

Passei metade da minha existência aprendendo a flanar pelo coração da cidade, não com o mesmo olhar apurado de um João do Rio, mas com a sensibilidade jovem de quem apreciava a solidão da caminhada errante por cenários pretéritos que, de uma forma singular, completavam uma enigmática lacuna em mim. Converti-me num irmão daqueles sobrados corroídos pelos ventos das eras e pelo abandono dos homens, conversei em silêncio respeitoso com eles, incorporei um pouco daquela melancolia acinzentada que carregam. Sei que as velhas construções continuarão existindo além da minha presença física no mundo, mas aprendi a amar todos os fantasmas das ruas apertadas e longas do Centro da Cidade. Imaginei ouvir os burburinhos ancestrais da rua do Ouvidor; a gagueira de Machado debater com a exuberante oratória de Nabuco; reconstituí a abertura da moderna e cosmopolita Av. Central, com seus belos canteiros e sotaque francês; ouvi ecos do discurso de Jango na Central do Brasil; olhei para o obelisco da Av. Rio Branco e vi os gaúchos de Vargas amarrando seus cavalos e anunciarem o fim da Primeira República.

Quem me observasse flanando pelo Centro, me veria sozinho. Porém, ao meu lado, fantasmas me seguiam em conversas animadas, consolidando a amizade entre o aprendiz e os guias que me ensinavam a poesia de contemplar. Com eles, redigi as melhores partes da minha antologia.  

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