Escrever

Publicado por

Pode parecer clichê, mas escrever é uma atividade dolorosa. Não à toa, precisamos nos forçar a encarar a página em branco nas tantas vezes que não encontramos ânimo para mergulhar na arquitetura das palavras. Estar próximo à conclusão de um texto que compomos é como se se colocar diante de um espelho implacável, que se compraz em insinuar a nossa mediocridade. No meu caso, envelheço me apegando muito mais à leitura do que à escrita. Sinto uma intensidade maior em descobrir do que criar. Não sei se tenho o perfil de escritor ou se me seduz mais a filosofia, pois em mim atração por escrever surge mais da inevitabilidade de ordenar o pensamento e filtrar o caos do meu imaginário.

Seja como for, é difícil. Nunca começa como um ato de entusiasmo, nasce da obrigação de evitar a culpa de não fazer. Só escreve aquele que é perseguido pela culpa quando não escreve. Uma penitência. Seria como meditar, é preciso escrever para colocar arreios na loucura. Quem não pensa em Van Gogh queimando as telas brancas com sua pintura incandescente? As cores representavam a âncora da sua frágil lucidez. Para um escritor, escrever é uma reação à própria consciência.

Os disciplinados sofrem menos, enquadram a compulsão em horários e temas específicos; os indisciplinados é que padecem na perspectiva de não se materializarem em páginas regulares. Sim, escreve quem se sente irreal no mundo, quem se concretiza como indivíduo somente através de sílabas, períodos, orações e parágrafos. É no árduo desenho elaborado pelas palavras que a névoa do “eu” se corporifica para o mundo. Quem escreve quer existir.

Os misantropos se apegam a escrita porque ela é a única comunhão possível entre o escritor e a interpretação da alma. É a autorrevelação que traz o consolo de encontrar a si mesmo como melhor companhia, seja através da máscara dos personagens ou num rasgo brutal que rompe o enigma do ego e o expõe aos olhos alheios. Quem se arrisca na construção de um texto sempre terá que ficar nu.

E por que falar sobre escrita? Assunto vulgar, sobre o qual qualquer um se atreve a dar palpite. Por que se infiltrar num mote que chega a ser maçante? Para escrever. Concluindo esse texto, terei oferecido satisfação a minha consciência. Afinei o único instrumento que me concede voz. Escrever é ouvir-me.

Ultrapassarei quatrocentas palavras aqui, dizem que Conrad escrevia duas mil por dia. Para mim, bastam essas quatrocentas. Alinhei a mente, expeli a ideia que me atormentava. Compreenda, afeiçoado leitor, não é fácil viver assim, é uma espécie de exílio, saber-se mais vivo pela palavra do que pela presença do corpo. Escrever é um orgasmo masoquista e metafísico. Que tudo se acalme, como no fim de uma tempestade.

Se, como eu, não identificar nenhum traço de humor em suas linhas, siga o conselho de Manuel Bandeira, feche o Word e toque um tango argentino. O debochado raiar do novo dia virá na próxima página…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s