A moeda de Caronte

Talvez, por coincidĂȘncia ou por um paralelo de ideias, na mesma semana que assisti a “Coringa” lembrei-me de outro filme icĂŽnico intitulado “Eu, Daniel Blake”. De certa forma, num paralelismo bruto, os dois filmes guardam uma essĂȘncia em comum. Falam de protagonistas acossados por uma estrutura social insensĂ­vel, mas que resistem no limite de suas crenças. NĂŁo Ă© difĂ­cil para um brasileiro sentir a catarse apocalĂ­ptica ao assistir a esses filmes. HĂĄ uma analogia entre as duas obras que passa pela questĂŁo da saĂșde. O que Ă© mais desumano e homicida do que o sistema de saĂșde do nosso paĂ­s?

Por mais de uma vez, fui testemunha de amigos acometidos por doenças, alguns em idade avançada, que ficaram internados por vĂĄrias semanas numa UPA Ă  espera de vaga em hospitais pĂșblicos, pois a unidade de tratamento que procuraram nĂŁo possuĂ­a condiçÔes de atendĂȘ-los adequadamente. O trĂĄgico Ă© que a vaga nĂŁo Ă© garantida. JĂĄ vi pessoas queridas falecerem numa UPA sem que fossem transferidas para hospital algum, como se Unidade de Pronto Atendimento fosse um mero entreposto entre a vida e a morte.

Um plano privado de saĂșde para uma pessoa com 55 anos ultrapassa os R$ 1.500,00 de mensalidade (uso a AMIL como referĂȘncia). Quantos cidadĂŁos podem dispor mensalmente de mais de R$ 1.500,00 para manter um seguro de saĂșde no Brasil? ApĂłs 59 anos, esse valor sofre um novo reajuste de faixa etĂĄria, o que praticamente condena muitos idosos Ă  morte ou ao purgatĂłrio dos serviços de saĂșde pĂșblica. É uma perversidade que pouco se discute, um tema que fica nos subterrĂąneos da polĂ­tica e que Ă© tratado pontualmente como um espetĂĄculo sĂĄdico pela imprensa carniceira. Tento imaginar quantas pessoas sucumbem diariamente, vĂ­timas dessa indiferença imposta pela entidade impalpĂĄvel e cruel que chamamos de governo.

Numa madrugada de 1994, meu pai sofreu um infarto e atĂ© entĂŁo presumia que nĂŁo necessitava de plano de saĂșde, um equĂ­voco que quase o matou. Sem encontrar amparo pĂșblico, o conduzimos para um hospital particular na Tijuca, ele desmaiou ao chegar. Antes de tomar as açÔes de emergĂȘncia, o mĂ©dico me perguntou se terĂ­amos condiçÔes de pagar o tratamento. Olhei para aquele arremedo de HipĂłcrates coberto por um jaleco de alvura beatificada e respondi que sim. O que ele faria se eu respondesse que nĂŁo poderia pagar? Na verdade, nĂŁo consegui mais enxergar o mĂ©dico depois da tal pergunta, o que eu via era uma espĂ©cie de matador de aluguel. Meu pai foi atendido, porĂ©m, de maneira suspeita, alegaram que nĂŁo havia vaga para internĂĄ-lo. Conseguimos transferi-lo para um hospital em Ipanema, onde ficou numa UTI atĂ© se recuperar. NĂŁo foi barato. Depois disso, convenceu-se de que seria imprudente continuar sem plano e contratou um.

O Brasil é um açougue, um matadouro. As pessoas são tratadas como pelanca descartåvel, só hå privilégios para o filé-mignon. Desenvolveu-se uma escandalosa eugenia de castas. Vou passar, muitas geraçÔes irão passar e morrer antes que o genocídio institucionalizado que prevalece aqui seja detido, se é que serå detido em algum momento. Discutimos todos os dias as possibilidades de um país melhor, mais humano, no entanto existimos sob a desesperança. Não somos Coringa nem Daniel Blake, habitamos à passividade indolente da fé. Não duvide que em nosso juízo final, se não possuirmos uma moeda para dar ao barqueiro Caronte, seremos também desapropriados do alívio da morte, sentenciados ao martírio eterno.

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