Rapapés

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Não tenho certeza se o fato de sermos um país colonizado foi o que nos dotou de certas peculiaridades de caráter. Agora, temos um presidente americanófilo, quase uma versão política de Carmen Miranda visitando a Casa Branca. Se enfeitassem Bolsonaro com algumas miçangas e colocassem nele um chapéu de bananeira, ficaria mais sintonizado com o desprezo gritante que Trump, o capitalista de topete loiro, lhe dedica. Quando vejo Bolsonaro posando com Trump, é inevitável associar à imagem de um poodle submisso ao lado de um arrogante rottweiler. É uma comparação generosa, já que o cenário político no Brasil se assemelha mais a um curral do que a um canil.

A personalidade colonial e bajouja não é uma exclusividade do nosso presidente, há em todos nós um bajulador incontido e obsessivo. Porém, o brasileiro não é sabujo de qualquer um, é preciso que ele identifique algum lastro de nobreza que faça valer o esforço. Se olha para baixo, o brasileiro sente um irrefreável impulso de cuspir na cabeça da plebe; mas caso suponha olhar para cima, ele lambe os pés alheios com a saliva eufórica do cão que idolatra o dono. A monarquia foi derrubada, mas ficamos com essa adoração doentia por títulos. É na vida acadêmica e profissional que substituímos os condes, barões e duques. Há muitos doutores, pós-doutores, procuradores paladinos, juízes heróis, sábios de gabinete e por aí vai. Não abandonamos o culto pela nobreza fabricada. O Brasil é uma república, mas o brasileiro continua colônia.

A esse fenômeno de compulsiva necessidade de mitificação, denominei como a “Síndrome do Caboclo Esnobe”. Criam-se feudos em áreas sociais e na cultura, simulacros de cortes tropicais confinadas em seus ilusórios Palácios de Versalhes. Elogiam-se mutuamente, numa dissimulação de afeto, e a claque acompanha, desde que os enaltecidos possuam as credenciais exigidas. Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro carrega um complexo de vira-lata, mas o vira-lata muitas vezes possui muito mais individualidade do que um cidadão tupiniquim. Temos uma volúpia sexual e supérflua pelo pedigree. Nossos olhos miram lânguidos a Europa e a América do Norte enquanto o sol dos trópicos açoita nossos lombos morenos. Não somos nada, nunca seremos nada enquanto rejeitarmos o que realmente somos.

Houve um tempo em que nossas artes, nossa literatura, quiseram encontrar a identidade nacional, desejaram corroborar o projeto de um povo livre do colonialismo e da caricatura gentílica. Quase conseguiram, mas o panorama atual comprova o fracasso do intento. A classe média quer se fingir de elite e a elite quer encontrar em qualquer graveto da árvore genealógica que confirme qualquer remota ascendência inglesa. O atento leitor me perguntaria sobre os pobres, os mais humildes, o que eles querem? Esses querem apenas sobreviver aos delírios sádicos dos que controlam o país.

As Redes Sociais expuseram nosso burlesco organograma social. Somos sectários e cultuamos totens. O sucesso do sujeito depende do status e da quantidade de sabujos que o seguem com veneração. O sucesso não confirma virtudes legítimas. O idiota pleno pode atrair milhares de outros idiotas apenas pela força gravitacional, sem que exiba o mínimo traço de intelectualidade autêntica. E assim nos transformamos numa nação de charlatões diplomados, bem assessorados ou simplesmente empoderados pela potência irrefreável da cretinice.  Deus acima de todos é que nos define hoje.        

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