Os dias de chuva são os piores

Os dias de chuva são os piores. Na juventude, em outras circunstâncias, eu gostava da chuva, do aroma que ela fazia subir das calçadas, o cheiro de terra molhada me trazia uma inexplicável euforia. Agora, a chuva se tornou ameaça, é preciso juntar as coisas, buscar um local seguro. Às vezes, ela chegava de repente, mal dava para pensar diante da torrente de água caindo do céu, formando correntezas caudalosas, simulando o dilúvio de Noé, ansiando por lavar a cidade. Nós somos parte da sujeira. Pensar rápido e correr. Nunca foi fácil, mas com o tempo marquei refúgios que me deixavam em segurança enquanto durassem as tempestades. O cotidiano nas ruas nos leva a priorizar um único instinto, a sobrevivência. De certa forma, o corpo e a mente retroagem a um estado mais selvagem, ao mesmo tempo que a vida é remodelada em termos primitivos.

Qualquer um irá considerar bizarro se eu disser que esperava cair nesta situação. É verdade, antecipei o meu próprio infortúnio e sabia quando ele começaria a se desenhar. Morre pai, morre mãe, a família se fragmenta, o desemprego, perde-se o pouco patrimônio, ganha-se dívidas impagáveis. Resta aquela que é o único acolhimento possível: a rua.

Deitado sob a marquise, primeiro vem a vergonha de ser reconhecido por alguém de outras épocas, alguém que possa ter conquistado estabilidade, casa, família e um trabalho seguro. Depois, a fome e a sede mostram que indignidade seria morrer ali, como um indigente, enterrado sabe-se lá onde e como.

Descobrimos a inevitável necessidade de defecar e urinar como animais, tento manter algum vestígio de pudor encontrando recantos discretos. O cheiro acre do próprio corpo, encardido e suado, incomoda a princípio. Porém, como tudo na vida, o olfato se acostuma à derrocada. Aquela vergonha inicial, o medo de ser identificado por um rosto familiar, desparece e se reverte na esperança de que alguém nos reconheça, se comova e nos auxilie com generosidade.

Sei que você deve estar estranhando a forma como me expresso, com correção formal da língua. Deve estar se perguntando se tenho estudo e berço. Sim, acredite na sua intuição, eu possuo estudo e berço. Não concluí a faculdade, mas a leitura foi um hábito diário e me arrisquei como poeta nos dias de abundância. Deixei passar boas oportunidades, não me esforcei muito, eu gostava de pulsar, de viver. Fui a cigarra inconsequente que contemplava as formigas com desdém. O meu destino estava traçado. Neste país, é cada vez mais fácil cair na mendicância do que conquistar um lugar ao sol. Restaram-me as sombras mais penosas da existência. Enquanto outros se gabavam de conquistas, títulos e viagens, eu parecia ter traçado a minha jornada direto para o fundo do poço. E o poço tem fundo, é a sarjeta. Símbolo dos fracassados e despossuídos. Talvez, inconscientemente, eu houvesse planejado essa derradeira experiência pessoal.

Fui perdendo a noção de tempo, mas creio que ultrapassei os doze meses sob o sol. Um pigarro evoluiu para tosse crônica, um alerta sobre a erosão da minha saúde. É surpreendente quando aceitamos o fato de que não há mais teto ou paredes nos limitando, sente-se uma liberdade mórbida, triste e inútil. Estranho também é observar as pessoas que passam, os olhares, a empatia, o desprezo. Certa vez, uma jovem de alvíssima beleza parou à minha frente, abriu um sorriso largo e puxou conversa.

— Moro aqui perto e sou sua fã. O senhor é uma lição de vida. Está aí, passando dificuldades e sorrindo. O senhor é um exemplo de força e esperança.

Sem saber o que responder, sorri. Ela arregaçou com mais vontade os dentes impecavelmente brancos, estendeu a mão, me deu uma garrafa d’água e quatro moedas de um real. Esticou-se e beijou-me à testa suavemente. É louca, pensei. Há dessas criaturas para quem a miséria se resume a um episódio teatral, onde encontram consolo patológico empenhando-se em gestos insignificantes de caridade.

Catar latinhas para trocar por mixaria, ficar com a mão estendida esperando com raiva e insistência o altruísmo de quaisquer olhos que me vissem, pedir um copo d´água no botequim, um resto de comida. Ajeitar o papelão sob o corpo, contemplar o tédio interminável sentado sobre a calçada. Se você imagina que toda a estrutura burguesa que o abriga é o fluxo natural do sistema, tenha cuidado. O celular, a TV a cabo, o seu notebook, a cama macia, o ar-condicionado, tudo isso é uma ilusória concessão para quem seguiu as regras, aceitou a disciplina e foi beneficiado com privilégios anteriores ao próprio nascimento.

Não sou o primeiro caso de mendigo letrado, favorecido por educação convencional. Conheci outros. Desde que começaram a acreditar que o Estado não deveria ser assistencialista, as marquises se tornaram o abrigo e a sina de multidões. Não é mais possível distinguir os que foram pobres desde sempre dos que decaíram da classe média. Coletivizaram a privação. Durmo pouco, sinto muito sono, fraqueza. A perna esquerda reclama com dor contra as longas caminhadas que faço procurando o farnel que me garanta outro dia. No passado, li que os budistas valorizam o presente. A rua seria o paraíso dos budistas, na rua só se vive o hoje, o agora. Durante algumas inevitáveis jornadas noturnas, eu lançava a visão para as janelas iluminadas dos apartamentos acima de mim, me encantavam as luzes, os vultos debruçados nos parapeitos. Por alguns segundos, eu coabitava o conforto das residências alheias.

A mão estendida, o sorriso que eu forçava à boca, eu sabia dos meus dentes amarelos. Quantos dias sem banho? A chuva podia ser o alívio que me despoluía das crostas e da poeira negra do asfalto. Oportunidade sazonal para que eu me esfregasse com um pedaço de sabão de coco debaixo de algum pé-d’água. Mas os dias de chuva são os piores. Recosto-me numa parede à beira da calçada, a mão estendida, o corpo baldio, sorriso de dentes descuidados. Por quanto tempo mais conseguirei conter o animal feroz e indomável que cresce dentro de mim? Quando a minha passividade se converterá no motivo do seu terror? A mocinha alva e cândida amanhece asséptica e ofuscante, entrega-me um saco de pão e uma caixa de leite, baba a minha testa com a sinceridade do beijo repugnante.

Na abóbada incandescente da cidade, um azul opressor espalhava-se pelo infinito. Enquanto bebo um gole do leite e mordo um pedaço do pão, a límpida manhã se move entre o caos de todos os que estão condenados a prosseguir.

1 comentário

  1. Boa tarde, amigo e ilustre escritor lendo e refletindo sobre a sua narrativa, por alguns momentos me vi naquela situação. O que me deixou aliviado pois por algumas vezes já proferi tais palavras. Dizendo já tenho uma cadela, já posso morar nas ruas. E é claro que a pessoa que ouviu não me disse nada. Mas o seu olhar há esse sim me valeu mais de mil palavras…deixo aqui meu abraço fraterno com um olhar cada vez mais aberto ao que acontece ao nosso redor todos os dias.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s