Diário dos vivos e outros escritos

*DIÁRIO DOS VIVOS E OUTROS ESCRITOS

EDITORA PENALUX

(2019)

A orelha escrita pela sensibilidade do artesão Eduardo Marinho e o prefácio da ativista e professora Elika Takimoto, servem como referências de uma boa leitura. Logo após a abertura desses avalistas literários, segue a apresentação escrita pelo próprio autor, texto de uma sinceridade tão sólida que se impõe como a gênese medular do livro. De certa forma, a apresentação escrita por Borret é o primeiro conto do volume e poderia ter parafraseado a sentença de Bukowski: “escrever para não enlouquecer”. Num tom confessional, o autor nos descreve como foi difícil e divino elaborar seus contos durante uma síndrome de pânico que sofreu. A palavra escrita e o seu cão labrador obrigaram-no a sair das trevas. Guiado pela criatividade que transmuta em arte todas as nossas experiências, Edmilson Borret evitou seu naufrágio. Nada é mais atraente do que um autor que não nega a própria humanidade à literatura que produz.

De cara, na primeira parte do livro, nos deparamos com uma escolha que poderia ser arriscada se não fosse bem conduzida. Todos os textos, divididos numericamente, que giram em torno de um personagem constante (o “tio”), se estendem do início ao fim sem parágrafos e em letras minúsculas. Sentimos como se o início de cada conto já houvesse começado antes de chegarmos a eles. Seguem os períodos, as frases, a pontuação, mas nada recomeça em letra maiúscula. Também não há parágrafos. São blocos de textos que esteticamente adensam ainda mais o conteúdo. Causam uma leitura de fôlego, não muito diferente da vida. Deslizamos pelas histórias com o pressentimento de que seremos tragados por elas em algum momento. É um salto.

Talvez, beneficiado por sua prática poética, Borret imprime um ritmo sedutor em seus contos, uma virtude que tem consequência na formação de seus personagens, nos quais quase podemos esbarrar, quase sentimos o ar morno da respiração dos que habitam cada página de Diário dos Vivos. Apesar de nem sempre o autor situá-los explicitamente num espaço social, temporal ou geográfico, transpira das histórias o cotidiano e os conflitos dessa nossa oscilante classe média espalhada pelos subúrbios ricos de gente. O “tio”, personagem frequente da primeira parte, está enredado em suas questões existenciais e obrigado à convivência. Pareceu-me um personagem tão natural que podemos confundi-lo com pessoas do nosso próprio círculo. Numa alternância de vozes narrativas, Edmilson se revela um mestre na criação de tipos e figuras ficcionais que não ultrapassam a margem de gente comum, remediada e que precisa sobreviver ao mundo.

Na segunda parte, intitulada “Como se ouvisse música”, nos deparamos com um suicídio e com inusitadas reflexões burocráticas, matemáticas e com os incômodos que o ato causará ao cotidiano das calçadas, pois o suicida se lança do alto de um edifício. Borret desvela a pragmática frieza de um socorrista diante do caos e das tragédias urbanas, em que muitas vezes os inconvenientes à nossa rotina ganham mais relevo do que o valor da vida.

Edmilson não tenta simular literatura, ele faz da literatura a sua válvula visceral de expressão pela arte. Certamente, foi um parto dolorido no processo e comovente no nascimento.

Na terceira parte, chamada “Cozinhando dores”, surge o protagonismo de personagens femininas. Outra vez, Edmilson comprova seu exímio talento na arquitetura humana. Num enredo trivial, relacionando os ritos da cozinha com as emoções mais íntimas das personagens, mergulhamos num texto que sobressai pela originalidade e pela perícia com que o autor rege cada palavra.

Na quarta parte, com o título de Lameiro, Borret retoma o texto em bloco, com pontos finais seguidos de letras minúsculas. Busca um tom rural na narrativa, uma voz rústica. Um conto breve, que gira em torno da simplicidade, dotado de uma musicalidade aconchegante.

Como que de propósito, o último conto do livro é a joia da coroa, obra-prima de perfeição poética e emotiva. “A Encantadora de gatos do Campo de Santana” é um daqueles textos sublimes que um autor alcança poucas vezes no exercício da criação. O carioquíssimo Campo de Santana como cenário para a interseção entre três personagens impressionistas belíssimos, inseridos num contexto vulgar. Emerge de tudo uma espontânea e longínqua atmosfera de Nelson Rodrigues. Quando a obra literária atinge sua maior grandeza, o escritor se assemelha também a um pintor, a um arquiteto. Ele torna o impalpável concreto, nos faz enxergar, tocar e até respirar junto com aqueles vultos que pulam das páginas. Da minha leitura, foi o conto que mais me provocou impacto, tamanha a sua harmonia, verdade e humanização de tudo que está posto nele. É com esse magnífico pôr-do-sol às margens da Central do Brasil que fechamos a última folha. Terminei o livro sem conseguir me desfazer dos estilhaços que ficaram em mim após o passeio pelo Campo de Santana. Antes de escrever esta resenha, só tive vontade de proferir um agradecimento. Faço agora: Obrigado por esse mergulho terno e tocante, Edmilson Borret.

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