Depois que descemos das árvores

Autor: Fernando Castilho

Editora: Autografia

Ano: 2018

Não sei se deveria iniciar esta síntese de “Depois que descemos das árvores” por um tom polêmico, mas são palavras que exigem sair de mim como um estouro de manada. Se houvesse avalistas que falassem com seriedade sobre livros no Brasil, que não se restringissem à pauta das grandes editoras ou à medíocre camaradagem como porta promíscua para recomendação de leituras; se as próprias editoras fossem menos ineptas, esta obra de Fernando Castilho estaria, sem o menor vestígio de dúvidas, entre os livros mais vendidos das maiores livrarias. Infelizmente, faz tempo que não temos uma crítica literária qualificada ou mesmo profissionais que possam comentar trabalhos mais elaborados, como este a que nos referimos aqui. Não há mais crítica acadêmica ou crítica impressionista que encontre espaço na grande mídia. Temos as resenhas pueris e os “booktubers”, que para falar de livros não escrevem, gravam vídeos. O certo, é que não devemos reclamar, é preferível alguma manifestação de boa vontade à nenhuma.

Articulando história, ciência, relações familiares e reflexões filosóficas, Castilho compõe um valiosíssimo tratado épico sobre a evolução da humanidade, desde que o primeiro indivíduo da nossa espécie ousou descer das árvores. Um livro potente, de conteúdo sólido e sempre nitidamente embasado por uma ampla pesquisa de notável competência.

O livro possui um perfil didático e cativante, não nega ser filho de um professor habituado à pesquisa e às salas de aula. Suas 239 páginas emanam uma corredeira de conhecimento que flui em nós através de uma leitura marcante.

Não comento o livro como obra literária, apesar de sua construção, desmembrada em unidades que se assemelham a capítulos, formar uma narrativa que poderia ser o protótipo de um romance sobre a jornada da raça humana. Diversos trechos da obra são composições das memórias que nos humanizam e despertam, em quem lê, afinidade com a vida e o tempo. A origem humana se mistura à biografia familiar de todos nós. A memória coletiva que também funciona como registro da degradação do mundo.

Uma das constantes reflexões do livro nos remete aos nossos ancestrais mais remotos para nos fazer observar que eles viviam períodos de ócio muito mais prolongados, se comparados aos dias atuais. Ócio que, apesar do contexto selvagem da natureza, tornava a existência mais humanizada, além de servir como incubador da criatividade na arte.

O pessimista, ou talvez o realista, poderá concluir que o avanço da civilização produz mais ônus do que bônus ao homem. É difícil negar. O livro costura os episódios históricos e científicos com o primor da precisão. Um trabalho de esforço vigoroso e de originalidade incontestável.

“Nós, humano sedentários, também somos hoje uma sombra degenerada do que foram nossos ancestrais.

Aprendemos desde crianças, através da educação primária, que devemos nos enquadrar ao modo de vida que a sociedade nos impõe, por isso nos tornamos servos voluntários e nos assemelhamos aos animais em cativeiro”

Em dois parágrafos hipnóticos, o autor nos revira a alma. Um breve exemplo da energia do texto.

Guardo absoluta confiança de que todos aqueles que desceram das árvores sentirão a curiosidade irrefreável de conhecer este trabalho do professor Fernando Castilho. Será uma melhora indispensável à biblioteca de qualquer leitor que não dispense o aprimoramento intelectual.

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