Você não estava aqui

Assisti ao último filme do diretor Ken Loach, que realiza o exercício de um cinema conectado com a realidade social e à transformação das referências civilizatórias. Em “Você não estava aqui” nos deparamos com um tema denso e sombrio. Apesar de Ken Loach se declarar um otimista, não consegui identificar nenhum vestígio de esperança na história que se desenrola na tela.

O filme aborda o encolhimento do mercado de trabalho por consequência de uma crise econômica que convence e empurra o trabalhador para um tipo peculiar de informalidade, em que muitas vezes ele se associa a alguma empresa como funcionário, mas não é considerado funcionário, não possui contrato, vínculo ou qualquer tipo de proteção que lhe garanta o mínimo de segurança e estabilidade. Essas empresas baseadas em tecnologia usam lógica invertida, é o trabalhador que a contrata para prestar serviço. Não é difícil observar casos em que o colaborador precisa pagar para continuar exercendo a função. É a nova face do capitalismo batizada como uberização. O marketing dessas corporações tecnológicas vende a ideia do trabalho autônomo, do sujeito se tornando o próprio patrão, do empreendedor individual. Mentiras que criam um modelo de servilismo voluntário, em que o empregado é monitorado o tempo todo, é mal pago e fica com o ônus de garantir os próprios meios de produção. Um cenário que causa a sensação de ser ainda pior do que os piores dias da Revolução Industrial.

No filme, vemos um desempregado se associando a uma firma de entregas. Ele compra uma Van e passa a ter jornadas diárias de 14 horas para conseguir pagar o investimento e sustentar a família. Ausente do cotidiano familiar, urinando em garrafas plásticas para otimizar o tempo, o personagem sente a existência se desintegrar ao mesmo tempo em que as relações familiares se deterioram. É um filme triste, pesado, em que testemunhamos o protagonista se entregar de boa-fé a um sistema tirânico que nutre orgulho pela tirania que gera resultados. O resistente afeto entre o protagonista e os membros de sua família mostram o único vislumbre de humanidade da narrativa.

Quando o Uber chegou ao Brasil, aclamado pelas matilhas jornalistas festivos e amantes de tudo que se assemelha à colonização, percebi que não estávamos apenas diante de uma corporação estrangeira que vinha para encampar a profissão de taxista, o Uber representa uma ideia nefasta, surfa na onda da subtração de direitos trabalhistas e do novo instrumento jurídico que concretizou o trabalho intermitente. Progressistas e conservadores se encontraram no deslumbre por um aplicativo que permite um transporte barato à custa da indignidade do outro. A ideia do Uber cresceu junto com o seu apetite por lucro, invadiram o setor de entregas de alimentos e hoje ajudam a falir restaurantes e lanchonetes impondo preços e promoções. A tecnologia num modelo desregulamentado gera desemprego para instituir o subemprego e o aprimoramento da concentração de renda.

Essas empresas virtuais e multimilionárias encontram facilidade para pressionar políticos, alugar espaço na imprensa, manipular opiniões e predominar diante do que já estava estabelecido. Num país como o Brasil, Uber e semelhantes fazem a festa. Aos poucos, mas numa velocidade temerária, avançam sobre outras profissões, testando os limites de alcance, preparando o bote. Encontram nesse intento um misterioso e irrestrito apoio do Judiciário.   

Há uma cena do filme em que o motorista da Van é assaltado e espancado quando realizava uma das entregas. No hospital público, onde buscou atendimento, recebe uma ligação da firma para a qual presta serviço, a voz do outro lado da linha avisa que ele terá que pagar 500 libras por duas mercadorias que não possuíam seguro e mais 1000 libras pelo aparelho de monitoramento que foi danificado pelos ladrões. Lembrei-me dos motoristas de Uber assassinados em trânsito e duvido que a família tenha recebido qualquer apoio ou compensação. Só posso terminar este reflexão com a pergunta de Chomsky em um dos seus livros: o lucro ou as pessoas?

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