A primeira vez

Nunca fui afeito à sabedoria de almanaque, sou um fiasco até para decorar número de telefone, não me interessou ser um fichário ambulante sobre qualquer assunto. Admiro muitíssimo quem consegue. Muitas das minhas descobertas foram tardias e a que ocorreu na noite que irei tecer aqui seguiu a regra.

Início dos anos 90, Copacabana pulsava com toda a sua opulência erótica. Boates, galerias, bares, praças, a vida noturna no regime mais democrático que havia no Rio. Eu costumava despencar da Tijuca ao Posto 6 para caminhar, ver gente, entrar em algum botequim e algumas vezes conviver com a fauna mundana que habitava a Discoteca Help, na Avenida Atlântica. Lembro dessas noites como flashes de luz ofuscando meus olhos. Naquela insanidade dissoluta e heterogênea a existência ganhava muito mais sentido do que a rotina burocrática de escritório que atravessava as minhas semanas. Talvez, seja por essa lógica leviana que a boemia cause dependência química e psicológica.

Num sábado, quase na fronteira do começo da madrugada, encostei no balcão de um pé-sujo da rua Xavier da Silveira, pedi um traçado, queria iluminar meu mundo antes de invadir a arena promíscua. Comigo, estava um amigo que eu chamava de Teixeirinha, os dois no frescor dos vinte anos de idade. Conversávamos quando uma melodia vazou das caixas de som do lugar. À medida que a música me envolvia de forma implacável, a curiosidade para saber quem cantava elevou minha ansiedade ao topo da espinha. Que voz! Que balada! Como num cenário montado para causar impacto, uma neblina que vinha do mar tomou as quadras mais próximas à praia. Algo parecido com um fog completou o clima underground que a música causava ao ambiente. Quando a canção cessou, apurei os ouvidos na expectativa do locutor da rádio JB informar o que era aquele ritmo que havia me deixado perplexo.

— Vocês acabaram de ouvir Summertime, com Janis Joplin — foi a senha esperada.

Na manhã seguinte, ocupei a loja da Gabriela Discos e adquiri o LP Big Brother & Cheap Thrills.

Perdi a conta de quantas vezes coloquei o disco para tocar no dia da compra, perdi a conta de quantas vezes ouvi as composições de Joplin desde que ela me descobriu em Copacabana. Amor, paixão, euforia. Tantos sentimentos ela me despertava a cada nova audição. Não foram muitas as vezes que sofri comoção diante de uma obra de arte. Janis Joplin me seduziu. O rosto, a rouquidão visceral, os gestos… Tudo nela, na história da sua degeneração, parecia querer traduzir a vida que me rodeava naquele momento. É indescritível quando a poesia do cotidiano nos captura. Ouvi-la pela primeira vez naquele boteco decadente, cercado por uma inusitada névoa que vinha do mar, preparando-me para entrar num imenso bordel à beira da praia, todo aquele contexto me fazia parecer mais um personagem noir do que um jovem existindo a esmo.

Ainda agora, sinto amor por Janis Joplin. Posso afirmar que nunca nenhuma mulher, além de Janis, me despertou devoção que fosse imperecível. A lembrança do dia em que nos descobrimos ficou gravada como tatuagem marcada em mim pelo timbre de sua voz. Foi como o primeiro encontro sexual, o primeiro orgasmo. A primeira vez. Sinto saudade daquela noite, nostalgia de quem eu fui.

“Well, I’d trade all o’ my tomorrows, for one single Yesterday.”

O disco gira e o tempo se refaz…

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