Vento Leste

– Acorda! Acorda, Jacinto!

Grito comigo diante do espelho do banheiro pela manhã. Ajuda a despertar. Nunca fui um madrugador. Sair cedo da cama é estimulante, mas o sono que me assola pelo resto do dia serve para desmentir os benefícios da prática. A rotina diária possui o status de hábito. Cuido da roça, trato das galinhas, pesco, organizo e limpo a casa, trabalho em pequenas esculturas de madeira, leio e escrevo neste caderno se a preguiça não for mais sedutora. Desde que escolhi morar na chácara é assim. Sem rádio, sem TV e com um celular antigo na gaveta para ser usado apenas num caso de emergência. Meu estado de isolamento beirava à perfeição. Você pergunta se não me sinto só? O objetivo é esse, ficar imerso na solidão absoluta. Para não me acusarem de exagero, desço uma vez à cidade de dois em dois meses para sacar dinheiro, comprar mantimentos não perecíveis, vender alguns produtos orgânicos e deixar para oferta o artesanato que crio. Acredite, isso já basta para me lembrar da sensação sufocante que predomina naquilo que chamamos de civilização. Civilizados são os bárbaros domesticados e camuflados no eufemismo léxico. Fora essas duas vezes que desço de dois em dois meses, minha única visão da cidade se dá de longe, quando subo à colina da minha propriedade. Eremita, misantropo, antissocial, antropófobo… Todos os adjetivos e substantivos foram usados para me qualificar. Não cabem na definição que guardo, sou um homem que se preservou da insanidade.

Desde que minha mãe morreu, depois de padecer por anos numa condição moribunda, sendo tragada por um câncer sádico, vendi todo o patrimônio e me retirei a uma chácara afastada do centro urbano. Minha relação nunca foi doce com a mulher que me deu à luz, ela foi opressora, debochava das minhas opções, sabotou meus relacionamentos, me condenou ao celibato. No fim, a gratidão por existir trouxe-me o fruto da compaixão por sua luta para sobreviver. De toda forma, não precisaria dizer que perder minha mãe foi lancinante, é um excesso óbvio que fere o bom texto, mas é uma dor que transborda de qualquer regra e por isso eu digo. Não tive esposa, não tive filhos. Estar sozinho é a relação mais completa que consegui estabelecer.

Antes de me exilar, frequentei psicólogos e psiquiatras. Um deles me diagnosticou com “síndrome de nostalgia”. Não sei bem o que significa, mas é correto admitir que o passado vivia em mim muito mais do que o presente ou o futuro. Minha vida seguia, a idade avançava, mas sempre lancei a âncora da memória em tempos pretéritos. Para você ter melhor noção da minha patologia, comecei a apreciar passeios pelos cemitérios onde jazem nomes conhecidos. Cemitérios, um mundo de gente passada e quase esquecida – não sou o autor da frase, quem disse foi Machado de Assis.

Sim, abnegado leitor que alcançou este parágrafo movido pela boa vontade de me compreender, foi a pureza da solidão que me curou. Cura pode soar como exagero, mas foi a solidão que evitou que a demência tomasse posse de todas as minhas vontades, foi ela que me fincou no aqui e agora. Aprendi a viver com pouco. De tanto insistir em domar a libido, ela preferiu me abandonar. Escrever ameniza os momentos críticos em que a ausência de um interlocutor ameaça o meu equilíbrio conquistado com tenaz austeridade. Releve se perceber que me repito em sentenças, pensamentos ou frases, é provável que seja consequência de estar há tantos anos sozinho. Falar com os próprios botões não enriquece as cores da alma que eles abrigam.

Todo fim de tarde, subo a colina que fica numa das extremidades da chácara. Do seu topo, observo a cidade com seus prédios diminuídos pela distância, como se fosse uma pequena maquete que só me atrai vista de longe. Às vezes, um vento que sopra do Leste estimula meu olfato com odores urbanos que não consigo distinguir, mas que nunca são agradáveis. Acostumei-me a conversar com o vento, a escutar seus sussurros e impressões, é um amigo que imagina trazer lembranças que me farão retornar ao convívio social. Nunca mais.

Somente me dou conta da redoma em que moro quando se completam os dois meses que me obrigam a visitar a cidade. A chácara é um terreno espremido entre uma formação montanhosa e um bosque denso, o único acesso a estrada principal é um caminho de barro que é interrompido frequentemente pelas chuvas da região. Não suponha que vou de bom humor, são os piores dias do ano. Confiro a bateria da velha caminhonete, carrego tudo que preciso levar às lojas que recebem as mercadorias que produzo, ligo o motor e dou a largada na viagem que dura em torno de uma hora e meia num fluxo permanente de descida. Como é um evento ocasional, sinto entusiasmo em dirigir escutando no rádio as músicas do momento. Uma alegria pueril. O cheiro de fumaça, a abundância desordenada de automóveis e os ruídos crescentes transpirando por todos os lados indica que estou entrando na capital, mas desta vez foi diferente. Não havia movimento de carros. Quando me enfiei na área habitada, um fedor insuportável invadiu meu nariz, compelindo-me a colocar um pano sobre ele. Pelo caminho, lojas fechadas, postos de combustível com aspecto de abandono, não se via alma viva em lugar algum. O que vejo são umas poucas pessoas nas sacadas e janelas acompanhando a passagem da minha caminhonete como se assistissem a um cortejo fúnebre. Segui em frente, não cogitei parar, só desembarcaria ao identificar o primeiro armazém que constava no meu roteiro. O centro urbano é árido, raras são as árvores, pássaros não existiam, o cenário preto e branco, concreto em cima de concreto. Como é possível viver assim? – eu pensava pelo privilégio de estar plenamente adaptado à subsistência na floresta.

Avisto o armazém em que descarrego o excedente da horta que deixo para vender. Ninguém. Na fachada, colaram uma folha de papel impressa com aparência de semanas e um aviso:

Devido ao surto que nos assola, as atividades deste comércio estão suspensas por tempo indeterminado.

Que surto? Voltei para a caminhonete apreensivo e continuei em direção ao segundo ponto do meu roteiro, uma loja de artesanatos no perímetro turístico do município. No percurso, seria mais fácil acreditar em fantasmas do que em gente. Uma sequência de nada desfilava diante do para-brisa. Encontro a loja de artesanato lacrada com uma fita amarela da defesa civil. Nenhum aviso. Largada à própria sorte.

Minha última passagem programada seria o banco, acelerei. Fechado e com outro aviso preso à porta de aço:

Caro cliente, devido à situação sanitária singular por que passa nossa cidade, nosso país, suspendemos nossas atividades até que a normalidade seja restabelecida. Contamos com a sua compreensão. Em breve estaremos juntos. Vai passar.

Situação sanitária singular? Decidi correr o risco de caminhar pelos arredores e comecei a escrutar gritos que vinham do alto dos prédios. Uns me chamavam de louco, outros suplicavam por comida e piedade. Num poste, mais um aviso: Não saia de casa até segunda ordem do governo, zele por você e pelos seus, o vírus não vê cara nem coração. Um vírus… Que vírus? Que demônio surgiu aqui? Vejo um corpo estendido na esquina, não me aproximo. Na entrada de uma casa, uma jovem loira e de beleza extraordinária estava sentada e recostada no portão trancado, o rosto abatido e a respiração ofegante.

– O que está acontecendo?

A loira me encara. Respiração rouca, tosse seca, articula com dificuldade as palavras e consigo traduzir uma única frase.

– Eles não querem me deixar entrar…

Toco em sua testa, a pele fervia como chaleira no fogo. Ela segura minha mão, uma pegada fraca, frágil. Desvencilho-me. Vou à caminhonete e descarrego todo o alimento que seria para vender. Levo os farnéis e deixo ao lado da jovem recostada. Da janela da casa, pressinto olhos me acompanhando. Eles terão que sair para pegar a comida, não será possível ignorarem a moça no portão. Por que eu não socorri? Não sei. Fazer o que fiz delimitava a fronteira da minha filantropia. Dei às costas e prossegui me enveredando por outra rua. Vejo mais corpos na pista, exalavam uma putrefação tão violenta que o ambiente se assemelhava a uma câmara de gás. Cachorros famintos cortavam o asfalto atrás de ratos robustos. Detesto cães e ratos me enojam. Corri. Entrei no carro, fechei os vidros e dei a partida. Tenho que retornar à chácara. O pânico me pressionava. Respirei. Respirei. O que houve? O que é isso? Vírus? Os que habitavam a cidade estavam reclusos. Alguns se mostravam mais determinados a morrer de fome do que enfrentar a doença que os espreitava. Pela quantidade dos alertas espalhados pelas paredes, é provável que eu tenha me contaminado seja lá com o que for. Preciso voltar. Passo em frente a uma farmácia, estaciono. Há entrada aberta. Ninguém. Giro pelo salão e recolho todos os remédios que possam ser úteis. Estou contaminado por algum vírus fatal. Na caminhonete, piso fundo no acelerador. Os pneus cantam. Fujo como um covarde. Um covarde.

As árvores renascem no meu campo de visão, é o caminho da serra. Agitação se aquieta à medida que os campos me envolvem. O pânico se dissolve no verde que revive. Será que me contaminei? A cabeça ainda girava. Não sou médico, não sou nada. Não tinha noção de que doença seria aquela. Eu só queria chegar no chalé. Não cruzo com nenhum carro, um deserto humano. A intuição me fazia crer que na chácara eu estaria protegido. Mas e se me contaminei? Morreria só, numa decomposição exposta, isca de canibais. O pressentimento da morte me incomodava menos do que as lembranças do que eu havia testemunhado. Embico pela estrada de barro, atravesso o bosque numa velocidade vertiginosa. Ao longe, a colina. Antes, meu porto, meu lar.

Limpar um peixe, depenar galinhas. A cozinha é um divã onde os devaneios se desnudam e valsam despudorados. As recordações das cenas macabras que experimentei na última jornada à maldita cidade se escoaram no intervalo desses seis meses de afastamento. Plantar e colher na roça complementam a terapia. Sobrevivi. Talvez, eu seja imune. A rotina sepultou o cheiro e a visão dos cadáveres e dos agonizantes. Não subi mais à colina, não quis mais olhar a cidade de cima, foi o rito que preferi descartar do cotidiano, mas a curiosidade é um predador nascido das emboscadas.

Após exatos seis meses, sentenciei-me à pena de voltar ao cume da encosta que demarcava a chácara. A escalada foi lenta, insegura. Quanto mais me acercava do topo, o pregresso infortúnio na cidade recapitulava-se e emergia da alma. A pele transpirava um suor frio. O fim da tarde deslizava veloz para as mandíbulas da noite. Ofegante, pisei na posição mais alta da terreno. Saquei um binóculo da mochila, fixei-o contra o vento Leste e pude ver a cidade sob um céu azul de limpidez soturna.

Acima daquele conjunto de concreto, um bando imenso de abutres circulava no ar simulando um exército prestes a entrar na fortaleza derrotada, alguns mergulhavam afoitos, desejando se apossar sem demora dos espólios da guerra. O infinito apagava-se lentamente, os pequeninos vestígios das lâmpadas automáticas reanimavam-se naquele labirinto erguido em cimento e argamassa, queriam refletir as estrelas do universo gelado e sombrio. O vento Leste soprava o vapor fúnebre que eu conhecia desde que rondava os cemitérios. Permaneci contemplando o quadro, calculei que o pior havia acontecido com os habitantes da capital. Mirei novamente os abutres em formação, tropa simétrica e determinada. Senti uma onda de serotonina desaguar no meu sangue. Não me julguem pela alegria irrefreável de me considerar numa onipotente solitude. Soberano de tudo. Imperador de mim.

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