Vacuum

Van Gogh

Olho a página branca, um vácuo como tela sem pintura. Agora, desenho as primeiras palavras, fragmentadas por um ambiente sem a força da gravidade que possa mantê-las enraizadas em algum ponto. Palavras sem ideia são cometas atravessando o vazio pálido e insípido que precede a criação. Lá fora, a ameaça espreita; aqui dentro, a ilusão frágil da resistência é a foice que amputou a liberdade. Gosto da imagem que compara a escrita com o aprendizado de um instrumento musical, estudo e prática diária. Talvez, tudo seja estudo e prática, mas a representação da escrita como algo próximo à música carrega o encanto que fortalece o significado da gênese literária.

Dois nomes sempre reincidem em mim. Um deles é Van Gogh, que amava a literatura. Inúmeras vezes eleva a escrita à paixão que guardava pela pintura. As cartas que escreveu ao irmão são rubis lapidados e valiosos. Van Gogh amava incondicionalmente os livros e o realismo de Zola.  A intensidade de suas imagens são cores que mimetizam a narrativa. É difícil dissociar a obra de Van Gogh do seu martírio em vida, principalmente quando lemos suas cartas. Há quem faça da arte uma via crucis, a busca pela redenção. Trágicos. As pigmentação incandescente dos quadros de Van Gogh vertem a relevância de sua tragédia. Houve paixão, sacrifício e beleza em seus dias, mas jamais houve paz. Olhar uma pintura de Van Gogh é ser soterrado por um tormento que nos causa empatia e desolação. A vibração do desespero que emanava de tudo. Van Gogh é um mito ecoando angústia e fatalidade.

O outro nome é Machado de Assis, que desde a sua morte foi talhado pelos caprichos da história. Um homem negro que atravessou da monarquia para a república num território hostil, que usou a escrita como arquiteta da sua imortalidade. Produziu de tudo em letras. Ao contrário de Van Gogh, desfrutou de uma vida linear. Superou as idiossincrasias, as adversidades de sua condição social, fez da palavra o instrumento que afinou por uma vida inteira até alcançar o grau de virtuose. Machado calcou sua vida na estabilidade, na paz dos hábitos e do cotidiano conservador. Encontrou o amor, encontrou a fama e a glória. Todos os ventos e todas as correntes se chocavam contra os seus propósitos, mas na tormenta ele escreveu seu continente firme e seguro. É incrível que esses dois homens tenham coexistido num mesmo período, separados pelo oceano e pela forma que gerenciaram as adversidades. Cada um a seu modo construiu o gênio que os fez eternos.

Há uma tristeza intrínseca aos dois, um pessimismo entranhado e expresso. As cartas de Machado a Mário Alencar são de uma melancolia comovente e estagnada; as de Van Gogh ao irmão Theo alternam-se entre a euforia de quem encontrou um sentido para viver e a infelicidade de quem pressente que o infortúnio é inevitável. Duas almas que se tocam na descrença pela humanidade.

Trancado em casa, a minha criatividade se vê contraída pelas paredes, portanto relevem qualquer reflexão repetitiva. A leitura é um esteio, um cajado em dias de treva. Schopenhauer sentenciou que não devemos ler a ponto de perdermos a autenticidade do próprio pensamento. Considerando o conselho, intercalo a leitura com a escrita que lavra a minha ilha. Obrigado pela obstinação que trouxe seus olhos ao fim desta página. Que as adversidades e os sobressaltos do universo nos inspirem como inspiraram os gênios. Que a breve lacuna da existência nos provoque a erguer novos continentes, que nos faça memoráveis.

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