O noivado do sepulcro no Brasil de Bolsonaro

— O país, de forma altiva, vai enfrentar os seus problemas. Sabemos do efeito do vírus, mas infelizmente muitos serão infectados. Infelizmente muitos perderão suas vidas também, mas é uma realidade quer nós temos que enfrentar. Não podemos fazer com que o efeito colateral, o tratamento do combate ao vírus, seja mais danoso que o próprio vírus. Há 50 dias venho falando isso.

(Jair Bolsonaro – Presidente da República do Brasil em 03/05/2020)

O Brasil converteu-se numa fusão dos nove círculos do Inferno. Não, não é mais o Brasil que conhecíamos. Desde 2016 estamos num território hostil tomado pelo obscurantismo, pela absoluta insensibilidade que sustenta o sentido da cidadania, pela desintegração institucional, pelo estímulo à incivilidade, pela sabotagem à inteligência. No discurso que já repetiu cinquenta vezes, o presidente lança uma sentença que nos faz questionar o que pode ser mais danoso do que o vírus e a mortandade que ele provoca? Para ele, pelo que entendemos, é mais importante o emprego e a economia, como se cadáveres pudessem ressuscitar em forma de zumbis para girar o triturador do capitalismo novamente.

Antes, cassavam direitos políticos, mas este governo deseja ir além, quer cassar nosso direito de existir usando a justificativa de que o colapso físico é menos nocivo do que a falência econômica. Elegemos Tânatos, o mito que representa a extinção, de coração de ferro e entranhas de bronze, a pulsão de morte. O bizarro é que descobrimos que a morte cultiva adoradores perseverantes, que correspondem a 30% dos eleitores do país. É possível que no futuro nossa nação seja estudada por este fenômeno que testemunhamos agora, este marco na história do mundo. Enquanto todos os países lutam pela vida, o Brasil optou pelo bizarro noivado do sepulcro – a fantasia gótica do célebre poema de Soares Passos. Abraçar Bolsonaro e sorver seus perdigotos é brindar o genocídio em crânios cheios de sangue, é condenar-se com ele.

E ao som dos pios do cantor funéreo,

E à luz da lua de sinistro alvor,

Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério

Foi celebrado, d’infeliz amor.

Com Bolsonaro, rompemos com todos os conceitos sociológicos que nos definiam. Talvez, essas definições tenham ficado obsoletas depois do golpe de 1964 e mais ainda após o motim de 2016. O Brasil se metamorfoseou a partir de entes subterrâneos, celerados que emergiram um pouco e um pouco mais, alimentados pela nossa hedionda aristocracia republicana, cães que vão tomando coragem a cada novo pedaço das vísceras laceradas da democracia que lançam à fome selvagem que os move.

Há resistência? Nada que ultrapasse a fronteira das notas de repúdio. As instituições que deviam nos preservar de lunáticos com complexo de imperador comportam-se como inspetores de colégio, escrevendo advertências contra o aluno bagunceiro.

Em que país estou vivendo? A resposta não surge em palavras, ela aflora num eco de incerteza e medo. Partilho com muitos a hesitante vontade de fugir, mas me falta a covardia sensata dos que abandonam a língua e a pátria para se exilarem da inquieta aversão que nos rodeia transbordando perfídia. Fico inerte porque estamos todos numa perplexidade inerte diante do huno tropical, o Átila caipira que salga a terra e incendeia a dignidade com as tochas feitas das notas de repúdio. Estamos encurralados entre a condenação incerta do vírus e a irracionalidade inevitável dos ogros. Encolhidos e envergonhados, assistimos à santa ceia lúgubre dessas criaturas medonhas que se derivaram da raça humana.

Porém mais tarde, quando foi volvido

Das sepulturas o gelado pó,

Dois esqueletos, um ao outro unido,

Foram achados num sepulcro só.

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