O ator e o poeta

Vivemos um tempo de perdas sequenciais que nos empurram a quedas emocionais incessantes. Estamos numa montanha-russa, experimentando a tragédia ininterrupta e inesperada de uma roleta-russa. Nos últimos dias, duas perdas ecoaram fundo na identidade nacional, Flávio Migliaccio e Aldir Blanc.

Flávio Migliaccio

Nunca havia assistido ao Flávio no teatro, até que surgiu a oportunidade de conferir sua última peça “Confissões de um senhor de idade”, que ficou também como sua despedida. Ao vê-lo no palco, me emocionei. Aquele ator na minha frente trazia com ele todas as imagens felizes da minha infância, da minha inocência, dos meus primeiros sonhos, da alegria irreprimível de uma criança. O Xerife da Camicleta, o Tio Maneco das aventuras. O intérprete que nos seus tantos personagens fazia a mágica de sempre nos remeter aos nossos remotos e melhores sentimentos. Quantos artistas possuem esse dom? Entre os poucos, Flávio Migliaccio possuía. Ao ler a última frase da carta que ele deixou, me comovi muito: “Cuidem das crianças de hoje”. As crianças foram a sua última preocupação, mesmo diante do desencanto com o mundo e com a humanidade. É muito difícil falar sobre aqueles que estão muito à frente de nós na grandeza do afeto e da sensibilidade.

Aldir Blanc

Vi Aldir Blanc duas vezes, a última foi num bar na região que chamam de Baixo Tijuca, no Rio de Janeiro. Ele estava no meio de uma roda de samba, cantava compenetrado e transpirava a felicidade dos homens simples que encontraram o destino na descoberta da vocação. Antes disso, através de um colega, recebi de Aldir um dos seus livros de crônicas, vinha autografado e à parte um bilhete me incentivava a continuar escrevendo. Gigantes são generosos. Fiquei chocado quando vi a mobilização que precisou ser promovida para que o poeta fosse transferido para uma UTI. Aldir transformou o nosso individualismo na consagração do coletivo, nos tornou universais com suas letras e com sua marca carioca. Aldir não foi só um artista, ele é parte fundamental da nossa identidade, da nossa história. Custei a compreender como um gênio daquela dimensão poderia estar entubado numa sala do hospital Miguel Couto a espera do resultado de uma mobilização popular para que ele fosse transferido a uma UTI que representava a salvação de sua vida.

Quando desiludimos um ator imenso que nos personifica e abandonamos um poeta genial que nos canta, resta a descoberta de que não somos uma nação. Flávio e Aldir ultrapassam o conceito de artistas, são patrimônios humanos, surgem como orquídeas raras que deveriam ser cultivadas com zelo e absoluta atenção. Falhamos. Empobrecemos e continuamos a empobrecer todos os dias, como se fosse possível nos afogarmos ainda mais nesta miséria intelectual que se tornou o Brasil.

Obrigado, Flávio. Obrigado, Aldir. Eu sou o que sou por vocês e graças a vocês.

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