Sobreviventes: A batalha épica dos taxistas

Tomei conhecimento da Uber e da sua entrada no Brasil em 2015, ano em que começou a luta e o drama de uma classe de trabalhadores que pressentiu a profissão ameaçada de desapropriação por uma multinacional. Acompanhei o desenrolar dos fatos na capital do Rio. As primeiras reações ocorreram através de atos de violência, como se os taxistas seguissem um roteiro já traçado pela Uber em outros cantos do mundo. A cada ataque contra motoristas do aplicativo, a cada intimidação, os jornalistas do Grupo Globo estampavam nas manchetes dos jornais e no destaque das notícias da TV. Em paralelo, o jornal O Globo mobilizou todos os seus colunistas em uma pauta única, a exaltação da Uber e o massacre moral sobre os taxistas.

Acuados pelo conluio gritante entre a mídia e a corporação estrangeira, os taxistas recorreram aos tribunais buscando proteção contra a ilegalidade escandalosa que ocorria na cidade do Rio de Janeiro. Foram surpreendidos e vitimados por uma sequência de inesperadas confissões de um Judiciário neoliberal, que em diversos despachos humilhava os taxistas para fazer prevalecer a invasão de aplicativos de transporte sem respaldo legal no código de mobilidade urbana. Resgataram o conceito de “livre iniciativa”, que só valeu até hoje para a Uber, nunca para as Vans, para os ônibus, nem para os carros piratas que rondavam rodoviárias e aeroportos. A ilegalidade e a concorrência desleal foram blindadas por liminares. O apadrinhamento dos aplicativos estrangeiros alcançou o ponto máximo quando o STF os declarou lícitos e um dos ministros aproveitou a sentença para fazer uma bizarra publicidade da Uber.

No caos surrealista, desabrocharam as lideranças autoproclamadas da categoria, surgiram promovendo manifestações animadas por taxistas gladiadores, executaram o bloqueio de vias, em um episódio conseguiram paralisar a cidade provocando um nó colossal no trânsito. O inacreditável é que não percebiam que continuavam a oferecer à mídia de aluguel a pauta que agravava a imagem de antipatia e arrogância que tentavam colar de forma genérica nos motoristas de táxi.

No meio dessa babel que avançava sobre o serviço de transporte público individual, os taxistas começaram a criar grupos de WhatsApp e associações com todos os nomes e siglas imagináveis. Reuniões eram marcadas dentro de cada tribo, mas nenhuma vitória concreta acontecia. A fragilidade do sindicato e a descentralização das decisões colaboravam para a implosão da classe. Apesar das associações, das cooperativas, dos grupos de WhatsApp, os taxistas nunca lutaram como um coletivo, agiam como bandos que investiam sem nenhum planejamento conjunto contra um inimigo organizado. Os taxistas somam uma classe imensa, mas que é formada de pequenos individualismos. A fraqueza reincidente da categoria é que só houve união em grupos, nunca a união da classe.

E o que caracterizava as cooperativas? Algumas funcionavam como empresas de cobrança, encampavam um espaço público onde os motoristas só podiam parar se fossem sócios e com as mensalidades em dia. A maioria delas pouco oferecia a quem se associava e tinha peso a remuneração de diretores e presidentes que se revezavam na comando. Cooperativas se apresentaram como uma subversão da palavra que deveriam espelhar. Que a crise da classe possa ter mudado a finalidade dessas organizações e que agora sejam mais expressivas como trincheira da categoria.

Na esteira individualista começaram a despontar os candidatos a cargos políticos, que também não conseguiram unificar os taxistas contra a adversidade que enfrentavam. Fragmentados, até hoje não se uniram em torno de um nome, não elegeram ninguém da própria classe que os representasse em qualquer tribuna carioca. No fim, muitos taxistas votaram num candidato à presidência do país que os comparava com máquinas de escrever, obsoletos e substituíveis.

Depois de alguns anos, finalmente compreenderam que seria necessário desenvolver uma ferramenta que os elevasse a disputar com os aplicativos de multinacionais para recuperar os passageiros que abandonaram os amarelinhos. Pressionaram a prefeitura e conseguiram que ela desenvolvesse o aplicativo Táxi Rio, iniciativa que contrariou alguns “empresários” da classe que desejavam a posse do aplicativo oficial. Com a colaboração de alguns dos mais dedicados motoristas, o aplicativo Táxi Rio se tornou realidade e agora é a boia salva-vidas que impediu a morte por afogamento de milhares de trabalhadores. Embora fosse tão importante, o Táxi Rio não nasceu imune da ciumeira, das disputas internas e da difamações contra aqueles que participaram do projeto. O aplicativo foi uma criança arrancada a fórceps do ventre do município.

Não bastasse a concorrência desleal da Uber, os taxistas enfrentam agora a pandemia do covid-19 e o desaparecimento dos passageiros devido a quarentena. Diante desse novo drama, o que faz a prefeitura? Distribui em sua sede mirradas cestas básicas que não chegam a todos os profissionais. Não é aceitável que uma classe que sustenta o IPEM, a SMTR e o DETRAN, pagando anualmente taxas compulsórias, não seja beneficiada com um suporte financeiro neste momento de apagão econômico. Os taxistas não necessitam somente de cestas básicas, é obrigação humanitária da prefeitura do Rio provê-los de auxílio financeiro digno, pois estamos falando de trabalhadores que prestam serviço para a cidade.

Amparada pela cumplicidade da imprensa, a Uber quis desempossar a palavra táxi, que é um substantivo comum de significado universal, por uma gíria tola e norte-americana que nos condiciona como povo colonizado. A Uber não se resume a uma empresa que força o extermínio dos taxistas, ela é uma ideia que quer exterminar a dignidade de qualquer trabalho.

Se no passado Homero escreveu a Ilíada e a Odisseia, talvez, no futuro, alguém possa escrever sobre este épico moderno que foi a história de uma classe de trabalhadores vilipendiada, que combateu com bravura e obstinação o grande capital estrangeiro e o desprezo do Estado que deveria protege-los da covardia dos abutres travestidos em corporações.

Não obstante os erros de estratégia, a falta de articulação unificada, os sindicatos de fachada, há entranhada em todos os taxistas a vontade inalienável de resistir, o sentimento maior de que compõem a alma da cidade. Se o povo aceitou o presente de grego, se receberam o Cavalo de Troia, o táxi é a antítese dessa submissão colonialista. Sobrevivem.

* Aproveito para prestar minha sincera homenagem aos motoristas de táxi que estão tombando após contraírem o covid-19. Heróis que sofrem pela exposição do ofício.

11 comentários

  1. Belo texto Alexandre Coslei, este texto resume todo esse drama.que nos taxistas estamos vivendo , sou engenheiro e taxista, eu acompanho essa batalha desde o início ! Obrigado pelo apoio !

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  2. Parabéns pelo texto, meu pai foi taxista de 1979 ate 2015, eu sou desde 1986 com muito orgulho.
    Mas infelizmente a categoria chegou onde esta por pura inércia,egoismo e individualismo.
    Apoio à políticos populistas, que só queriam votos e prefeitos que só reconheciam as lideranças de empresas que sugavam motoristas.
    O tratamento desleal das empresas com os motoristas acabou reflerindo no instinto de sobrevivência que acabou minando a qualidade do serviço de taxi, abrindo espaço para uma empresa que queima dinheiro na casa do bilhão de dólares a cada trimestre se aproveitando do desemprego para subjugar “parceiros” ao arrepio da lei e com a conivência de politicos corruptos e juizes que adptaram as leis ao sabor dos U$A de bancas internacionais.

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  3. É isso companheiro, estamos firme contra o imperialismo a mídia de aluguel e os propósitos de imoralidade contra o trabalhador

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  4. Obrigado Coslei,pelo seu apoio, sem seu apoio ficaria muito difícil enfrentar essa multinacional, que vive a sonegar impostos.

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  5. Obrigado, e digo que está na hora de se tornar uma categoria de profissionais e deixar de ser grupos!
    Waltinho taxista com muito orgulho Nova Friburgo.

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