Petardo: A degradação moral da literatura

A literatura recente é feita de egos e marketing, um derrame de autores sem filtro em que só sobrevivem os melhores publicitários. Nas últimas semanas, perdemos dois titãs da escrita contemporânea, frutos de outra geração. Fiquei incomodado ao ver tanta gente ligada à produção literária nas Redes Sociais usando a morte desses autores para falarem mais de si mesmos do que para homenagear a obra dos falecidos. Egos. A literatura virou uma sala barulhenta e cheia de ninguém.

Recebo muitos livros e textos de autores da nova safra, fico até sem entender por que me enviam seus trabalhos, pois não escrevo na grande imprensa nem sou apresentador do Globonews Literatura, mas fico honrado que pretendam colher a minha opinião. Demoro na resposta, leio muito e leio devagar, mas na medida do possível ofereço a crítica. Certa vez, houve uma figura que me enviou seu primeiro livro, percebendo que eu não escrevia sobre ele fez contato e me cobrou a resenha. Fiz a resenha, observei pontos interessantes na obra, apesar de um tom melancólico que me enjoa um pouco. Publiquei a crítica, a figura ficou feliz e sumiu. Nunca me pareceu ler uma linha do que escrevo, além da resenha que escrevi sobre seu livro, não interage nas minhas Redes Sociais, nunca mais trocamos qualquer palavra. É a síntese dos escritores da geração atual, egoístas e ególatras. Não há generosidade, cortesia, essas demonstrações de afeto e grandeza que existiram nas gerações passadas de escritores. É uma disputa sem causa nobre, de quem quer somente ser visível e alimentar a fome insaciável da vaidade. O culto à presunção.

Editores e autores exigindo boicote à Flip e à obra de Elizabeth Bishop; editores que tratam mal ou com desprezo os autores que fornecem o lastro de credibilidade às editoras. Desenvolvi a teoria de que existe o bolsonarismo de direita, mas também há o bolsonarismo de esquerda, diferem-se apenas nos nomes em que votam e pouco nas atitudes que revelam. Aparecer em jornal é fácil, difícil é ser coerente e prestar um bom serviço. Infelizmente, escritores se omitem quando o assunto é questionar as editoras e os opressores que padecem de falsidade intelectual.

Não faz muito tempo, procurei um jornalista de um desses programas de TV sobre literatura, fui pedir que analisasse a possibilidade de realizar um bloco sobre um imenso autor falecido que completaria 80 anos de nascimento. Levei um fora do jornalista apresentador, como se eu o estivesse incomodando na mensagem privada do Facebook. Literatura para essa gente se resume aos seus próprios livros e as obras de quem ainda é vivo e consagrado. Como incensar criaturas assim?

Todos esses acontecimentos têm sedimentado em mim a aversão pelo atual cenário dos livros. O comportamento oportunista, ordinário e bajulador não é o perfil da arte que me representa. Talvez, o tempo ajuste e selecione os que possuem valor, mas a ausência da crítica séria na imprensa e a falta de conexão dos canais acadêmicos me deixam pessimista. A literatura é o ofício que mais está se degradando. Alguns dos prêmios literários me parecem viciados, nem sempre transmitem insuspeição. A realidade é desconfortável, mas façamos a nossa parte.

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