À margem

Calor. Uma gota de suor brotou na minha testa. Reforçada por outras gotas, ela marchou densa pelo meu rosto, num obstinado trajeto que encerrava a intenção suicida de saltar do alto do meu queixo. Assim que desembarquei em Manaus, fui recepcionado pelo choque térmico. A primeira vez que eu pisava ali, o ar de janeiro na Amazônia parecia composto por brasas. Caminhei em busca de um táxi. Um sujeito baixo e calvo correu aos gritos na minha direção.

– Pramil, doutor. Pramil. Doutor vai voltar a ter fôlego de garoto. – O escandaloso duende fenício conseguiu, ao mesmo tempo, me rotular como velho e impotente. E ainda se considera um vendedor.

Constrangido e sem saber como me desvencilhar daquela situação, respondi com a primeira mentira que me ocorreu.

– Perdão. Sou pastor e estou indo realizar um culto. – O careca arregalou os olhos e se afastou sem dizer nada.

Que ele tenha acreditado em mim é compreensível, mas você deve esperar para me conhecer com mais apuro antes de qualquer conclusão. Prefiro manter uma relação honesta entre nós dois. Tenho mais de cinquenta anos, perdi o emprego e sou um fracassado. É uma confissão pesada, difícil, eu sei, mas prefiro que seja assim. Fui traído por todas as mulheres que tive, não posso gerar filhos e alcancei este ponto da minha vida sem perspectivas de estabilidade. Quando recebi a rescisão, somei com as reservas da poupança e só conseguia relembrar do Nicolas Cage no filme “Despedida em Las Vegas”. Há os que consideram uma obra depressiva, para mim é inspiradora. Não, não enlouqueci. Não seria digno lamentar o pouco que me restava da vida. Detesto a melancolia explícita, segui pelo hedonismo sem pensar demais nas consequências.

Arranjei uma amante. Amante. Uma mulher casada que conheci no Tinder. Diana. Linda. Ruiva. Diz ser descendente de escoceses. Inacreditável ter se interessado por mim, pelas minhas fotos. Hoje ninguém mais se interessa por ninguém, a imagem é que define as relações. Barrigudinho, grisalho, não compreendia o porquê daquela mulher afirmar que estava apaixonada. Nunca tive sorte no amor nem na guerra. No fim, aceitei a graça, reservei hotel e comprei a passagem para Manaus.

Calor. Um calor diferente do calor do Rio. Manaus nos queima por dentro. Eu quase não suportava pensar, o cérebro só reproduzia a sentença da insuportável sensação. Calor, calor, calor. Esta cidade deve ter sido fundada em cima de um vulcão ativo, brincava com a minha imaginação. Quando entrei no táxi e entreguei-me ao sopro gelado do ar-condicionado, não consegui conter o suspiro. Acredite, o orgasmo tem várias formas de expressão. Rumei para o hotel Líder, que oferecia preços aceitáveis e quartos decentes, de acordo com a pesquisa que realizei pela Internet. Ao descer do carro, fui envolvido novamente pela ardência da atmosfera, corri para o saguão levando minha mochila com poucas peças de roupa, fiz o check-in, peguei as chaves e subi afoito. A visão do quarto confirmou seu conforto simples, mas honesto. Eu precisava dormir antes de entrar em contato com Diana e avisar sobre a minha chegada.

Horas depois fui despertado pelo ronco do meu próprio estômago. Decidi explorar os arredores em busca de algum restaurante. É sempre estimulante explorarmos um lugar desconhecido. Fui percebendo que Manaus é uma cidade de prédios baixos, feios, com aparência envelhecida, casas e sobrados mal conservados, gente humilde circulando nas calçadas. O mais interessante, é uma cidade sem relevos expressivos, um terreno de insistência horizontal. Como um carioca da gema, a ausência de montes ou montanhas ao alcance dos olhos me causou uma inesperada desolação. Entre as montanhas e o mar, a alma do carioca se desenvolve na bossa poética. Euclides da Cunha tinha razão sobre a Amazônia ser horizontal. Em Manaus, a falta de verticalidade se apresenta como um paradoxo opressivo. Esbarrei com um bar que emanava o aroma aconchegante de comida caseira. Pedi um contrafilé com fritas e me senti num banquete monárquico. Sentado numa cadeira dura, em frente a uma mesa azul de ferro com a inscrição “A Boa” na superfície, o paladar consolava todos os sentidos.

Voltei para o hotel. Repeti o banho para limpar a camada de suor que me recobria. Vesti o melhor traje que trouxe e liguei para Diana. Não atendeu. Esperei alguns minutos, quem sabe o marido estivesse por perto, mas ela havia me garantido que ele viajaria. Telefonei outra vez e tocou até cair a ligação. De novo e nada. O celular apita, um SMS.

“Perdoe-me, desisti do nosso encontro. Não posso fazer isso.”

O quê?! O sangue engrossou nas minhas veias. A ansiedade misturada à desorientação e às horas de viagem tomou meu raciocínio. Que sacanagem é essa? – pensei.

Atordoado, liguei a TV para tentar focar minha atenção e organizar o caos do pensamento.

– Que pilantra tratante – gritei.

Abri a janela, botei a cabeça para fora, queria respirar, aspirar serenidade, mas a temperatura fumegante foi um tapa na cara do meu histerismo. Anoitecia. Saí do quarto, a inquietação tornou o ambiente claustrofóbico. Fui caminhar mais uma vez pelo entorno do hotel. O que fazer? Paguei quatro dias de estadia adiantados e a passagem de volta também estava marcada para daqui a quatro dias. As lâmpadas das ruas se acenderam, replicavam-se naquele plano infinito. Manaus refletia uma capital triste, me provocava um vazio que eu não conseguia decifrar. Cercada pela floresta, tudo potencializava a solidão. Avistei um táxi parado no ponto, aproximei-me e perguntei ao motorista se ele conhecia algum bar ou boate em que eu pudesse encontrar mulheres de boa vontade, ele entendeu e exprimiu a resposta com um sorrisinho que pairava entre o deboche e a cumplicidade. Manaus é conhecida por ser um polo libertino. Entrei no carro e ele acelerou para reconduzir o meu destino naquela cidade.

Você pode perguntar a razão de um sujeito que foi recém-rejeitado pelo amor decidir-se pelo abraço da prostituição. É sina. Se eu fosse escritor, seria um Sade tropical. Náufragos e meretrizes se atraem como mercúrio. O taxista não havia rodado muito quando aportamos em um bar numa via estreita, de iluminação pálida. Paguei a corrida, ele sussurrou que ali estavam “as melhores” e me desejou boa sorte.

 Procurei um canto estratégico naquele antro, sentei-me e pedi uma cerveja. Avistei logo a morena de negros cabelos longos, corpo descomunal, cercada por dois sujeitos com fachada de bancários. Quando ela adivinhou meus olhos, rebateu com um flerte nu de qualquer inocência. Eva deve ter lançado o mesmo olhar para Adão quando provou do fruto proibido. A garota saiu de onde estava e veio em cadência firme na minha direção.

– Está sozinho por quê?

– Estou visitando, sou do Rio – respondi acanhado.

Ela não fez cerimônia, acomodou-se à minha frente dizendo que amava cariocas e puxou conversa. A ampulheta do tempo esgotava os grãos de Cronos enquanto ela me contava a sua história. Não suponha que é algum tipo de discriminação da minha parte, mas toda prostituta carrega em si um evangelho, são narrativas similares justificando o caminho que tomaram, só muda a autoria. Alcoolizados por meia dúzia de latões e duas doses de Salinas, nos beijamos. Beijo de línguas enroscadas, com troca de saliva e olhos bem fechados. Confesso, naquele contexto eu corria o risco de me apaixonar. Após um longo período de bolinação, perguntou-me o que eu queria. Falei que queria muito ir para a cama com ela, mas também pensei em conhecer mais a cidade, vi pouco de Manaus. Ela se levantou bruscamente dizendo que iria me mostrar o lugar mais lindo da cidade. Aceitei e saímos de mãos dadas do bordel. Outro táxi, corrida mais longa. Comecei a divisar prédios altos, condomínios rebuscados, luzes coloridas, burburinho de gente, de bares e uma imponente praia emoldurando o cenário.

– Bem-vindo à Ponta Negra – me informou a menina.

Andamos a pé pela faixa de areia até a beira da presença majestosa do Rio Negro. A hora avançada, o silêncio cortado somente pelo chacoalhar da correnteza constante do rio trazendo o eco de outros tempos e de outros lugares dos quais roeu as raias da terra. Ficamos estacados, mudos, enraizados à margem do rio, duas criaturas à margem da vida. Eu e Juci, este era o nome dela.

Retornamos ao hotel onde eu estava hospedado. Roçar de corpos, beijos infindáveis, gemidos. O sexo foi prejudicado pela embriaguez, mas consumou com entusiasmo a nossa convergência. Amanheceu, tomamos café juntos, paguei o que ela me pediu e nos despedimos. Não me arrependi de ter alugado aquela ilusão, me fez bem. Atravessei o resto do dia sozinho, deitado e de ressaca. Almocei no quarto, comi pouco. A imagem vultosa do Rio Negro badalava na minha mente. Pedi à recepção que me trouxesse um jornal, li sem concentração. Anoiteceu. Dormi exausto do nada.

No dia seguinte, a rotina não foi diferente, mas me organizei para adiantar o meu regresso ao Rio de Janeiro. A cena da Ponta Negra continuava pulsando em mim. Uma fixação. Eu precisava voltar, precisava rever o rio. Uma atração irrefreável me puxava. A tarde caía rápido, chamei um táxi.

– Boa tarde, amigo. Quero ir à Praia da Ponta Negra.

Alguns minutos de viagem e eu contemplava novamente o portentoso Rio Negro. Ajeitei-me num local de menos agitação e encarei aquela água escura como se fosse um buraco liquefeito. Perdi a noção das horas. Senti a água me convocando, as correntes que atravessavam para o oceano me chamavam, ânsia de romper o limiar da praia num mergulho. Entrei no rio furtivamente, como se estivesse hipnotizado pelo canto de Iara. Longe, o Sol alaranjado submergia suave na desfocada distância da borda oposta, num sublime e despudorado acasalamento que pariu a noite. Éramos três elementos distintos reunidos naquele ménage à trois sensorial. A água morna me seduzia com a sensualidade das curvas desejadas de uma mulher.

Sou ateu por opção ponderada, porém, o instinto romântico me faz suspeitar de alguma entidade mística, impalpável, velando e impelindo o meu enredo. Envolvido pelo rio, não sei expor com clareza, mas ouvi um som semelhante ao de uma caneta sendo largada com força sobre uma folha de papel, baque abafado e seco. Um arrepio percorreu minha espinha. Pressenti que aquele que me concebeu nestas páginas talvez tenha desistido do personagem. Na meia-idade, cercado por múltiplos horizontes, eu não tinha horizonte algum. Sem propósito, sem amigos, todas as mulheres me abandonaram. Por que ele não desistiria de mim? É justo. Estou por conta própria agora, mergulhado na mornidão do Rio Negro. Finalmente, posso definir a próxima virada da trama, a derradeira. As palavras se dissolveram como o barro empurrado para o mar. O céu se trancou no negrume das águas, igual a um caderno que se fecha confinando ideias e anotações. Tudo se dissipou. Despareci.

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