Entrevista Gay Talese

Gay Talese

Há 40 anos, o jornalista americano Gay Talese estava prestes a publicar aquele que pretendia ser o registro definitivo da revolução sexual nos Estados Unidos nos anos 1970. Com o livro-reportagem “A mulher do próximo” (1980), ele queria retratar as transformações do comportamento sexual do americano médio.

A crítica da época não perdoou a opção do autor de ignorar o então crescente movimento feminista e a expansão da comunidade gay. Casado e pai de duas filhas, também foi espinafrado por explorar praias de nudismo, casas de massagem e sexo no processo da reportagem.

Seus detratores reagiram ao olhar eminentemente masculino do livro. A questão ética surgiu novamente com a publicação de “O voyeur” (2016), obra que lhe rendeu ataques por causa de inconsistências na apuração e o próprio método da reportagem. Talese recebeu informações de um dono de motel que vigiava seus clientes sem consentimento.

Há quatro anos, num evento em Boston, diante de uma plateia majoritariamente feminina, perguntado se havia sido influenciado pelo trabalho de mulheres jornalistas ele respondeu apenas “não” — foi o que bastou para que fosse execrado no Twitter. “Na década de 50, não havia muitas mulheres nas redações. Se o mediador tivesse percebido o engano e perguntasse sobre a influência de autoras ao longo de minha carreira, teria citado muitas que admiro, entre elas Mary McCarthy e Susan Orlean”, explicou.

Aos 88 anos, Talese é um medalhão. Tem a experiência de quem viveu a dinâmica do debate do início das lutas identitárias nos anos 1960 ao surgimento da militância nas redes sociais. Sua visão não deixa de ser a do homem branco, privilegiado, alvo potencial da cultura do cancelamento, alçado ao panteão dos mestres da não ficção, um integrante da turma dos anos 1960 que Tom Wolfe definiu como adepta do Novo Jornalismo.

Confinado em sua casa em Manhattan, Talese fala ao GLOBO, em entrevista por email, sobre os recentes manifestos de intelectuais na revista “Harper’s” e no site “The Objective”, expondo visões antagônicas a respeito da “cultura do cancelamento”. Comenta também polêmicas recentes da mídia — no jornal “The New York Times”, James Bennet renunciou ao cargo de editor da página de opinião, sucumbindo às críticas por publicar um artigo em que o senador Tom Cotton defendia a intervenção militar em protestos antirracistas.

— Sou um absolutista da liberdade de expressão — diz.

O senhor acha que seria “cancelado” se publicasse “A mulher do próximo” hoje? É possível escrever obras ousadas, mesmo que desagradem a militância?

Acho que essa atmosfera em que apenas um lado detém a definição de “virtude”, “retidão” e “igualitarismo” é uma tendência perigosa e contrária aos princípios democráticos. Mas pode ser que a minha voz seja considerada irrelevante e antiquada — a voz de um jornalista formado em outra época. Se eu trabalhasse no jornalismo diário hoje, talvez fosse demitido. Felizmente, aos 88 anos, não estou preocupado. Tenho dois livros para entregar, nenhum deles é sobre política. Como jovem repórter do “New York Times”, me esquivei da política. A matéria política é efêmera. Parece aqueles pequenos aviões que desenham e escrevem com fumaça no céu. Você está nas nuvens, circulando para lá e para cá, escrevendo palavras que, momentos depois, perdem a forma e desaparecem para sempre.

No que diz respeito ao jornalismo, como o senhor analisa o embate entre os dois manifestos publicados recentemente?

O tipo de jornalismo que pratico hoje é o mesmo de quando comecei a carreira, há 65 anos. Sempre entrevisto as pessoas olho no olho e, quando faço uma pergunta, repito algumas vezes para ter certeza de que o sujeito a entendeu bem. Escrevo as respostas às minhas perguntas em pequenas fichas de papelão que carrego comigo. Se tiver dúvidas sobre o que escrevi, ligo para a fonte para ter certeza de que não apenas escrevi certo, mas de que dei uma representação justa do que ela pensa e sente.

“A matéria política é efêmera. Parece aqueles pequenos aviões que desenham e escrevem com fumaça no céu”

GAY TALESE
Jornalista e escritor

Que cuidados toma em relação ao texto?

Quando escrevo alguma coisa, tento não apenas escrever bem, mas também usar prosa graciosa e discreta, que possa ser lida com clareza e que demonstre compreensão da complexidade da natureza humana. Ou seja, no meu jornalismo as coisas nunca são “negras” ou “brancas”, nem nada disso. Antes, meus personagens são apresentados como humanos que têm conflitos internos e múltiplos sentimentos em relação a questões políticas, raciais ou qualquer outro tópico de interesse contemporâneo. Como escritor de não ficção, escrevo para fazer o que os bons escritores de ficção fazem: descrever o interior de um indivíduo, mostrar suas diversas faces, o todo e suas partes que mudam com o tempo, não são estanques.

Qual é a sua opinião sobre os fatos que acarretaram a demissão de dois editores de opinião do “New York Times” nos últimos 40 dias?

Quando fui repórter do “Times”, entre 1956 e 1965, e depois jornalista de revistas e livros, nunca permiti que ditassem o que eu escrevia ou lessem meus textos antes do meu editor. Não difamei ninguém, nunca publiquei nada sobre alguém que me impedisse, tempos depois, de entrevistar a pessoa novamente. Sempre tive respeito pelas pessoas sobre as quais escrevi — caso contrário, não escreveria sobre elas. Isso não é, pelo que leio hoje, a tônica do jornalismo moderno. Hoje, o jornalismo político é feito, na maioria das vezes, por repórteres que detestam tanto o presidente Trump (como seus editores), que o que se vê no noticiário é jornalismo de pegadinha, métodos de entrevista que induzem o entrevistado a fazer declarações prejudiciais à sua integridade e reputação — o entrevistador quer sempre mostrar intencionalmente o assunto de maneira desfavorável ao entrevistado.

Como assim? A visão ideológica contamina a cobertura?

Caçar pelo em ovo é o prato do dia no menu do jornalismo atual. Não me importo muito com Trump (não votei nele e apoiei Sanders como candidato à presidência), mas isso não vem ao caso. O ponto é que há um bando de jornalistas que pensa de maneira unilateral. Eles são produto de uma educação de elite que os diferencia das pessoas comuns. Esses jornalistas com suas agendas pessoais (que quase sempre coincidem com as agendas de seus editores) exercem grande influência naquilo que chega ao público, não só no noticiário, mas também nos editoriais.

Mas e as demissões? O jornal errou?

Então, quando alguém como Tom Cotton escreve algo que soa ofensivo à maioria dos repórteres, as cabeças rolam, e Bennet é convidado a se retirar. O que penso sobre isso? Sou um absolutista da Primeira Emenda, contrário a qualquer limitação à liberdade de expressão, portanto você pode concluir que eu não faria qualquer oposição à publicação da opinião de Cotton — afinal, foi impressa na página de opinião. A página de opinião destina-se a abrir espaço a opiniões divergentes, mesmo que a maioria possa achar repugnante. Isso deve estar sob o controle dos editorialistas, não da equipe da reportagem.

Então, na sua opinião, é censura?

A equipe de repórteres que liderou a oposição a Bennet/Cotton contribuiu para uma forma de censura. Todo mundo (jornalistas incluídos) tem preconceitos, opiniões sobre moralidade e justiça. Isso não quer dizer, contudo, que se deva impor uma visão unilateral a pessoas que pensam diferente e que estejam contribuindo em um espaço de opinião.

O senhor concorda que as mídias sociais estão redefinindo padrões do jornalismo?

Não sei muito e também não me importo com as mídias sociais, já que não faço parte delas e nem as acompanho. Estou tão distante da tecnologia moderna que nunca na vida sequer tive um telefone celular. Como jornalista, nunca usei gravador — eu os detesto, acho que eles não dão ao entrevistado a chance de se defenderem dos praticantes do jornalismo de emboscada e suas perguntas capciosas. Além disso, nem sei o que é o Twitter, embora anos atrás tenha ficado impressionado com sua ira, quando não respondi rapidamente a uma pergunta incompreendida num seminário de jornalismo na Universidade de Boston. Mídias sociais e entrevistas gravadas, armas mais comuns dos jornalistas de hoje, são ferramentas rápidas que servem às mentes preguiçosas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s