Minha entrevista para o site “Os Imaginários”.

Palestra em São João Marcos / Rio Claro

https://osimaginarios.wordpress.com/2020/07/09/um-pe-de-papo-entrevista-com-alexandre-coslei-eduardo-selga/

Uma das grandes vantagens da popularização da Internet, apesar dos danos que essa ferramenta pode causar, é a chance de conhecermos pessoas a respeito das quais, mesmo militando no perímetro metafórico de nossa tribo, muitas vezes, não tínhamos notícia. A humanidade é vasta, afinal. Maio que nossa aldeia.

Uma dos colegas que conheci por intermédio do triplo dáblio e do http é o excelente escritor carioca Alexandre Coslei. Desde os primeiros textos com os quais tive contato, impressionou-me o agudo senso crítico, característica que nos faz imensa falta hoje, sobretudo porque o que temos a mancheias é um criticismo vazio ou capturado pelos fanatismos (o que definitivamente não é o caso de nosso entrevistado), e isso, ao fim e ao cabo, não é ser crítico. Nesse sentido, merece destaque a seguinte frase do Alexandre Coslei na entrevista abaixo: “O pensamento nacional não é próprio, é terceirizado”, ou “No futuro, ler talvez se torne uma atividade subversiva”.

Está lá no Obvious: “É autor dos livros Os paralelepípedos da Vila Mimosa, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado Os indigentes literários, uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o jornal O DiaObservatório de imprensaFolha do Meio Norte e em diversos blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Em 2019 lançou o livro de crônicas Subversões“.

E agora ele conversa conosco na coluna Um Pé de Papo, cuja ideia é procurar saber do entrevistado (artista ou alguém umbilicalmente ligado à cultura) não apenas suas concepções artísticas e de mundo, como também o que ele plantaria para as gerações futuras colherem.

Alexandre, chama-me a atenção em suas crônicas a aguda percepção dos elementos que compõem a realidade, sem a romantização alienante. É o jornalista falando alto na produção de um texto literário? Como o cronista convive com o jornalista?

Quando escrevo uma crônica sinto-me mais livre para exercer a reflexão e o olhar sobre o que me rodeia. A crônica, no meu entendimento, é o exercício do estilo sem a obrigação de uma estética literária. Sou um escritor que aprecia muito compor textos que se embrenham pelo pensamento, que margeiam a visão filosófica sobre o mundo. No meu caso, o jornalista sempre perde para o escritor, se considerarmos o jornalismo como o campo da objetividade. Passo longe de ser um idiota da objetividade, como dizia Nelson Rodrigues. O que me protege da alienação romanesca emerge mais de um senso crítico que cultivo diariamente do que da prática do jornalismo. O jornalista é o reflexo de uma época; o cronista é o mergulho.

Ainda que discretamente, a crônica ainda é considerada subliteratura em certos círculos, pelo fato de o berço do gênero ser a redação dos jornais e, em tese, exigir pouco em sua feitura. Essa hierarquização dos gêneros serve a qual intento? 

Os grupos que consideram a crônica como subliteratura mantém uma visão ultrapassada e preguiçosa sobre o gênero. Talvez, a rotulem assim justamente pelo que expliquei na pergunta anterior, a crônica possui a liberdade do estilo sem a obrigação da estética, o que permite ao autor uma vastidão extraordinária de exercícios do pensamento. Além disso, o cronista é uma espécie de escrivão do cotidiano das cidades, do mundo e do período histórico em que vive. Cronistas são elementos valiosíssimos no resgate da história. João do Rio, por exemplo, é o maior provedor de informações sobre a atmosfera cultural e intelectual da Belle Époque carioca. A hierarquização quer criar fronteiras, impor uma limitação que não existe e é injusta.

O Brasil está crônico, como bem sabemos. Em que medida a arte, especialmente a literatura, pode ajudar no sentido de fazer com que o país saia dessa situação?

No caso do Brasil, sou pessimista. Há um nível de analfabetismo funcional imenso, o incentivo à educação entrou num buraco negro, o cinema foi sabotado, outras artes estão condenadas à pouca visibilidade por falta de apoio e patrocínios, a literatura se vulgarizou ao extremo. Não creio que a arte será capaz de contribuir com a melhora do cenário em que (de)caímos. O que salvaria o Brasil e a arte, há muito tempo sabemos, seria o investimento num projeto educacional consistente. Infelizmente, as perspectivas do momento estão amarradas à mediocridade política do país. As últimas eleições revelaram a onda de ignorância que nos cobriu.

Voltando ao real, também em muitos de seus contos ele está presente, como na narrativa de Os paralelepípedos da Vila Mimosa, que aborda o chamado “submundo” da prostituição. O Brasil, hoje, é uma grande Vila Mimosa ou é um prostibulo de luxo?  

O Brasil virou um grande curral, onde o gado adquiriu um comportamento binário que parece irreversível. Reflexo do mundo. A nossa desvantagem maior se acumula na desigualdade social e no comportamento cínico em relação às minorias. Somos um país que sofre de esquizofrenia ideológica, não existe coerência nem à direita nem à esquerda. São poucas as mentes esclarecidas.

Quando o Uber e aplicativos similares se instalaram no Brasil, com ajuda importante de autoridades e políticos, você se posicionou vigorosamente contra, em favor dos taxistas. Qual sua posição a respeito, hoje?

A aceitação incondicional do Uber, uma empresa multibilionária que invadiu o Brasil transgredindo leis e códigos de mobilidade, demonstrou com clareza o nosso caráter profundo de povo colonizado. A mente colonizada do brasileiro aparece também nas redes sociais, onde as subcelebridades funcionam como faróis da opinião popular. E quem são as subcelebridades?  São juízes, promotores, jornalistas da grande mídia, atores globais, o intelectual, o filósofo popstar etc. O pensamento nacional não é próprio, é terceirizado. O repúdio promovido contra os taxistas se baseou muito mais num preconceito de classe do que na qualidade do serviço. Permaneço junto aos taxistas e radicalmente contra a ideia que o Uber traz para as relações de trabalho. E nossa habitual contradição e esquizofrenia ideológica se manifestou no apoio popular à greve do entregadores contra o abuso dos aplicativos, quando o Uber faz parte da mesma cadeia de exploração.

Nas últimas eleições nacionais você pretendia lançar-se candidato a deputado estadual, mas desistiu. Até que ponto o ambiente partidário é compatível com o espírito de um artista? A ideia de candidatar-se está definitivamente afastada?

Desisti definitivamente do projeto eleitoral, me senti muito desconfortável ao me introduzir na possibilidade da prática política. Minha experiência talvez demonstre que a sensibilidade artística é incompatível com a engenharia que a disputa eleitoral exige. Desistir do projeto político, porém, não me impede de ser um ativista obstinado.

Você não apenas produz literatura como também escreve sobre ela. Em sua opinião, quais as veredas estéticas mais seguidas pelos novos prosadores brasileiros?

Ouvi uma frase de Nélida Piñon que considerei a melhor definição do panorama literário atual: “Hoje, publica-se o que vende, não o que fica”. Isso resume. A maior parte da produção das editoras se concentra em títulos estrangeiros e no marasmo comercial. A estética literária brasileira, na minha humilde opinião, está com imensa dificuldade de renovação, de inovação linguística. Estagnamos. Por quê? Novamente, me remeto a nossa deficiência educacional, às falhas reincidentes na formação de mentes originais. Vivemos mais do passado do que do presente ou do futuro. Machado de Assis valorizava demais o projeto de identidade nacional, ele ficaria aterrorizado com o Brasil contemporâneo.

Na literatura, quando se fala em “bom gosto”, costuma haver um recorte social implícito que exclui certas manifestações pertencentes a grupos excluídos das grandes decisões políticas, como os negros, as mulheres e os LGBTs. Em sua opinião, esses grupos devem fazer uma literatura de trincheira, militante, ou aproximar-se do “bom gosto” dominante para serem aceitos pelas grandes editoras e pelo mercado consumidor?

Vejo a literatura como projeto do indivíduo, que reflete o autor inserido num período do tempo social. Não entendo a literatura como um projeto de grupos e não creio que possa existir de forma legítima seguindo esse caminho. Sobre as editoras, todos nós devemos resistir aos conceitos comerciais que elas tentam impor. A disseminação da literatura de mascate é devastadora para quem exerce a escrita como arte. Editoras vivem do lucro, é óbvio, mas isso não confirma que o lucro seja fruto da vulgarização cultural. A mediocridade é uma escolha e não uma condição.

Se antes tínhamos nos grandes jornais a crítica literária, hoje temos na internet alguns pseudo-resenhistas que, via de regra, jamais encontram senões nas obras literárias. Faz falta a análise literária nos antigos moldes ou ela não cabe mais na contemporaneidade?

Dizem que a imensa produção literária deste século inviabilizou a crítica, mas não concordo. O que inviabiliza a crítica é a imposição comercial nos espaços onde ela era praticada. Hoje, um bom autor independente lança um livro, o envia para um crítico da grande mídia e nada acontece. No mesmo dia, uma grande editora lança o livro de um autor banal e no dia seguinte está no caderno de cultura de algum grande jornal. Há também a crítica de compadrio, o crítico do jornal que é amigo de determinado autor e facilita a divulgação do livro. A verdade é que quase não se vê crítica atualmente, há muito mais releases envernizados como crítica. A boa crítica literária seria fundamental para filtrarmos a produção, para não deixarmos passar as grandes obras. A praga do capitalismo de consumo impede que esse filtro exista.

Conceituar uma identidade nacional é algo que carrega muito de subjetividade por causa dos aspectos culturais envolvidos, quanto mais a nossa, tão multifacetada. Quando esse momento histórico no qual estamos incluídos passar, o que será o Brasil do ponto de vista de sua cultura e identidade, em sua opinião?

As bases da identidade que construímos como povo está sendo desmontada por um governo que se orgulha de incentivar a recolonização do país. Temos um presidente que, no meio de uma tragédia, comemora o 4 de julho norte-americano. Construir uma identidade requer um esforço imenso, é preciso contar com uma convergência de fatores aleatórios, com gênios nas artes, com grandes políticos, com mentes privilegiadas e com o reconhecimento mútuo das nossas virtudes como nação. Não sei quando conseguiremos retomar nossa identidade.

Até que ponto vale a pena criar personagens complexos do ponto de vista psicológico, filosófico e emocional para um público leitor (como é, em boa parte, o leitor brasileiro) pouco disposto a profundidades e muito afeito ao espetaculoso na literatura?

Costumo dizer que hoje temos muito mais marqueteiros do que escritores. Diante disso, a literatura visível deste século é produzida por privilegiados, os que possuem capacidade financeira de promover e publicar o que escrevem. Temos muito de literatura pseudoexistencialista, romances com personagens melancólicos perdidos em enredos banais. Os nossos bons autores são de uma geração passada, que está em extinção. Os novos nascem com essa obrigação comercial de serem visíveis, é difícil se estabelecer rompendo o padrão. Posso responder a sua pergunta como uma sentença que já citei: a mediocridade é uma escolha, não uma condição. Cabe a cada autor a decisão de vender a alma ou de escrever na dimensão do seu talento.

Com a quarentena (ainda que meio avacalhada), o texto literário que não é lido, e sim interpretado por alguém para uma audiência que não se sabe composta por quem nem por quantos, virou prática corriqueira. Em sua opinião, daqui por diante isso se acentuará, ainda que a pandemia arrefeça, ou o espaço da leitura estará garantido?

Apesar de muito se falar de livros, das estantes nababescas no fundo das lives da moda, vejo o espaço da leitura cada vez mais reduzido. Livros são um símbolo de status intelectual, por isso eles aparecem como pano de fundo para tanta gente, estão muito mais para objetos decorativos do que para provedores de conteúdo. Os streamings, o smartphones, as séries da Netflix, o YouTube, a novidade frenética das lives, tudo isso rouba a concentração e o interesse exigido de um bom leitor. São iscas quase irresistíveis para todos nós. Resistir é inútil, diria o Borg de Star Trek. Somos assimilados quase diariamente por esses canais alienantes que pedem somente a nossa passividade. Já a leitura é uma atividade interativa, exige o esforço do pensamento, da interpretação, da reflexão. Diante do conflito que a leitura solicita, a maior parte de nós escolhe a inércia de alguma tela. A conclusão empírica nos revela que o avanço da tecnologia encolhe o campo da leitura. No futuro, ler talvez se torne uma atividade subversiva.

Não é possível ser verdadeiramente escritor de ficção sem ser leitor contumaz. No máximo, é possível ser escrevinhador, pois o arsenal subjetivo se empobrece sem a influência de autores já publicados. No entanto, há muitos novos autores que claramente leem pouco, restringindo-se ao gênero de que mais gosta. Em sua opinião, a que se deve esse comportamento? 

A geração Word encontrou muita facilidade para escrever e pratica a escrita como um ato impessoal, mais ligado a fórmulas do que à arquitetura das palavras. Existem centenas de oficinas de escrita criativa com manuais e instruções de estrutura. Não falam em arte, falam de padronização. Os autores que alcançam o mundo visível incentivam essa trilha pasteurizada. Machado de Assis, um exemplo que admiro muito, aprendeu a escrever lendo e copiando obsessivamente os clássicos. Hoje, é impossível alguém ler tudo que deságua nas livrarias, é preciso ter um norte. Eu escolhi priorizar os clássicos porque são as obras chanceladas pelo tempo e eu precisava de uma direção para desenvolver o meu estilo. Não acredito que ler muito forme um bom autor, mas ler o essencial é necessário. Hoje, o sujeito considera muito mais atraente escrever do que ler, primeiro porque ler não alimenta a vaidade, o que alimenta a vaidade é ter uma estante cheia de livros; mas escrever pode atrair atenção e reconhecimento num mundo sobrecarregado de carências emocionais.

Algum livro em processo de elaboração?   

Estou incubando a ideia para um romance, seria a minha primeira incursão no gênero. Mas ainda é um projeto embrionário, não tenho como detalhar.

O que você gostaria de plantar hoje para que as futuras gerações colhessem?

Gostaria de plantar a percepção de que o senso crítico é fundamental para consolidação da consciência. Estar no mundo não significa existir, existimos quando somos capazes de captar as nuances da realidade ao nosso redor. Valorizamos muito a conquista de títulos acadêmicos, essa fixação em status, outro vício colonial. A formação acadêmica é, muitas vezes, um processo burocrático, mas o senso crítico é uma construção intelectual que não exige do indivíduo mestrado ou doutorado. Lima Barreto criticava muito essa obsessão por títulos nobiliárquicos que persistiu mesmo após a implantação da República. No Brasil, o conceito da aparência é muito mais forte do que a edificação da inteligência.

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