Atemporal

A biografia humana se divide em câmaras isoladas pelas paredes do tempo. Nossa memória está presa ao período em que vivemos. O aquém é o que nos contam de um pretérito que não testemunhamos; o além são as suposições e as fantasias sobre o que gostaríamos de viver. O passado e o futuro que ficam fora do nosso alcance são ficções que idealizamos. Atente, quando seus olhos começarem a percorrer o próximo parágrafo desta página, quando sua mente erguer as cenas e os personagens que aqui vão inscritos, a narrativa dominará a sua consciência, ela será real.

No outono de 1892, o céu colombino do Rio de Janeiro parecia de um azul mais intenso, num tom utópico que contrastava com o concretismo trincado dos homens. Sob o sol de um dia morno, vemos Domingos Jorge de Sá adentrando o sóbrio Ministério de Agricultura, Comércio e Obras Públicas, no efervescente Centro da Cidade. Domingos saboreava o júbilo de estar alocado nessa repartição pública através de um senador, amigo do seu falecido pai. Muitos que conheciam o jovem Dom, alcunha que reduzia seu nome, não entendiam a teimosia de querer trabalhar. Seu pai o delegou uma herança nababesca, fruto da posição como representante comercial dos produtores de café das regiões mais prósperas do interior. Dom, um negro alto e bem-apessoado, impressionava pelo porte altivo. Não se importou em ser designado como estafeta devido a sua falta de experiência, comemorou por estar subordinado ao diretor Machado de Assis, a quem idolatrava como exemplo de vida e glória alcançada. Suas razões estavam contidas no orgulho de querer construir o próprio caminho, de se diferenciar dos rentistas inúteis.

Apesar da admiração por Machado, em seis meses no Ministério trocaram poucas palavras. O diretor e autor de Brás Cubas, seu livro de cabeceira, sempre foi cordial, mas sem abandonar os formalismos. O escritor fazia um tipo de burocrata risonho, sem deixar de ser absorto e introvertido. Nesse período atuando na repartição, Dom ainda estremecia quando se aproximava daquele que enxergava como totem. Numa manhã de expediente, ousou levar um exemplar da obra do mestre para colher um autógrafo. Machado, ao pressentir o gesto, gaguejou algo e abanou as mãos ao alto da cabeça como quem reprovasse antecipadamente a atitude do rapaz. Dom encolheu-se constrangido e nunca mais repetiu o intento.

Certa vez, Dom recolhia despachos que deveriam ser distribuídos por outros departamentos quando percebeu duas damas elegantes atravessando a porta. Encostaram-se no balcão que separava a mesa do diretor do restante da sala. Olharam para Machado como se reverenciassem uma estátua. Incomodado com a veneração em seu gabinete, o vetusto se levantou bruscamente e foi atender as mulheres com um cavalheirismo exemplar. A madame mais madura tomou a palavra.

– Perdoe-me incomodar, monsieur Assis. Viemos de longe, de São João Marcos, não sei se Vossa Senhoria conhece. Se não conhece, aconselho a conhecer e já está convidado. Minha filha, aqui ao meu lado, é uma entusiasta incondicional da sua obra, principalmente da sua poesia. Passando por perto e sabendo que o Ministério seria o local onde poderíamos encontrá-lo, cometemos o abuso de entrar para suplicarmos por uma dedicatória no livro que minha menina traz à mão. O senhor se incomodaria?

Machado sorriu desconcertado, fez aquele abano com as mãos no alto da cabeça, que agora denotava mais aceitação deslumbrada do que repúdio. Mulheres conseguem despertar a vaidade dos modelos mais ranzinzas da espécie, pensou Dom. Machado e as duas forasteiras encetaram conversa. O diretor quis saber sobre São João Marcos, conhecia a fama do seu fausto e tinha curiosidade pelo lugar. As trocas de amabilidades duraram uns dez minutos, foi quando Machado as convidou para um jantar com ele e a companheira em sua casa, no Cosme Velho. Elas aceitaram no ato. Despediram-se eufóricas, com a promessa de comparecerem.

Quando as duas saíram, Machado lançou um olhar para Dom por cima do pincenê e perguntou se ele também aceitaria o convite para ir ao Cosme Velho à noite. Dom desconfiou que o chefe suspeitava do seu deslumbramento pela ninfa que acabara de sair da seção, uma vênus de beleza arrebatadora. Gaguejando tanto quanto Machado, confirmou presença. O anfitrião informou a hora e o endereço, frisando que não se atrasasse, porque dona Carolina, sua esposa, era exigente com horários. O rapaz, que tentava ocultar uma incontrolável tremedeira de excitação, juntou os papéis assinados pelo superior e evaporou-se.

Um pouco adiantado na hora, Dom ficou contemplando a fachada da casa do Cosme Velho como se estivesse em frente a um templo. Dona Carolina o viu pela janela e acenou para que entrasse. A imagem da senhora pequena, de cabelos brancos e pele alva, o enterneceu pela delicadeza da acolhida. Ao penetrar na casa, o jovem contínuo teve outro momento de sublimação, foi envolvido pelo aconchego de tudo que havia ali. Machado surgiu e o cumprimentou com um sorriso franco e um aperto de mão frouxo, pediu para que se acomodasse.

Transcorrido alguns minutos em que Dom era paparicado por Dona Carolina, as duas admiradoras de Machado irrompem na sala conduzidas pelo gentil anfitrião, que as apresenta pelos nomes. Baronesa Eudóxia e Júlia, mãe e filha. Apesar da proclamação da República e da caça aos monarquistas, no domínio privado alguns cidadãos prosseguiam tratando-se pelos títulos nobiliárquicos, um resquício do respeito pelo antigo status talvez; ou uma bizarrice do vício incurável pela existência mascarada.

Machado e Dona Carolina conduziam o jantar como exímios regentes da pequena conferência, quiseram saber da família de Dom. Quando ele contou sobre as posses que o pai havia deixado, o casal não conseguiu camuflar o aparvalhamento da surpresa.

– Você é rico! – Exclamou Machado quase por reação involuntária.

Enquanto a exclamação ainda reverberava pelos cristais e espelhos da casa, o olhar salivante das duas visitas se voltaram para Dom.

– Não sou rico, mestre. Meu pai foi bem-sucedido. Eu apenas carrego o fardo de tentar gerir seus bens. – Alguns segundos após dizer isso, Dom envergonhou-se da fuga retórica, ainda mais conhecendo os cochichos que pairavam no Ministério sobre as origens minguadas do velho escritor.

Perguntaram sobre a mãe do rapaz, que suspirou antes de informar que ela falecera há poucos meses e que agora vivia só. Mudando o alvo e tateando por diálogos menos fúnebres, o casal do Cosme Velho foi sondar as duas visitas de São João Marcos. Júlia e a baronesa moravam numa fazenda deixada pelo barão, o patriarca também já havia desencarnado. A falta de conhecimento do negócio de café fez com que elas convocassem um sobrinho de Eudóxia para ocupar as responsabilidades da administração das terras.

Mirando a janela, dona Carolina sugeriu, de repente, que Júlia e Dom fossem conhecer seu jardim e respirar a luz da lua cheia que reinava do lado de fora. Dom estremeceu pela timidez, mas a moça deu um salto e esperou o funcionário de Machado fazer as honras. Dom levantou-se da cadeira e Júlia fez um gesto de quem esperava ser conduzida pelo braço, ele atendeu à intimação e saíram de cena. Um quintal pequeno, com muitas rosas desabrochando, trabalho da habilidosa jardineira revelada em dona Carolina. Fora da casa, a rua estava calma e silenciosa, com latidos longínquos de cachorros. Dom retira o paletó e cobre os ombros de Júlia, havia uma leve friagem orvalhada. Sentaram-se num banquinho de madeira, no fundo de um dos canteiros. Os dois jovens lançaram os olhos pasmados à Lua imensa e prateada que emanava o brilho de um manto azulado, recobrindo de mistério e romance aquela noite carioca. Júlia quis saber sobre Dom, curiosidades que sondavam mais o patrimônio, a situação profissional e pouco questionava os assuntos da formação humana. Dom respondia com boa vontade, observando os olhos de Júlia contraírem-se entre espanto e expressões indecifráveis. Não decifrar incomodava Dom, ele também se sentia assim com Machado, cujos olhares o faziam comportar-se como uma cobaia indefesa sendo dissecada a sangue frio.

Subitamente, Júlia se aproximou dele mais do que apropriado, ergueu a mão, tocou suavemente a face do rapaz e mordiscou o lábio inferior com uma languidez que causou um breve calafrio em Dom. Júlia esticou o pescoço em direção a boca do moço, Dom presumiu o que vinha, quis detê-la, quis deter-se, mas acima de tudo queria confirmar o que vinha. E veio. Júlia o beijou na boca com uma voracidade irrefreável, um beijo de desejo, de língua impudica, provocando uma onda de saliva licenciosa. Descolaram os lábios e Dom expirou perplexidade, enquanto Júlia, com as bochechas coradas, sussurrou num miado ininteligível que traduzia a sua óbvia satisfação. Dom queria falar, a língua travara, respirar era um esforço num corpo que estava paralisado por um misto de prazer e embaraço. Coube a Júlia a pergunta inesperada.

– Gostou? – O semblante trazia uma expectativa sincera.

– Se eu gostei?! Nossa!

Júlia abriu um sorriso airoso e sugeriu que retornassem ao interior da casa. Ajeitaram-se, ensaiaram naturalidade e reentraram em cena. Ao ultrapassarem a porta, colidiram com os olhos vidrados de Machado e Carolina buscando as minúcias dos dois. Eudóxia os salvou.

– Na hora certa, minha filha. Hora de nos despedirmos desta noite maravilhosa e deste casal tão acolhedor.

Despediram-se todos com a informação de que a baronesa e Júlia regressariam para São João Marcos na manhã seguinte.

– Venham nos visitar também – recomendou a baronesa para Machado e Carolina.

– Queria vê-lo em São João – disse Júlia ao pé do ouvido de Dom.

Com gratidão, Dom despediu-se de dona Carolina e ofereceu a mão em cumprimento a Machado, que devolveu a cortesia repetindo o aperto frouxo, causando no rapaz a sensação repugnante de estar apalpando um molusco. Soltaram-se e sorriram, cada qual com as estranhas e reincidentes impressões que nascem do contato epidérmico. Caminharam em direção aos tílburis e a densidade noturna se desfez.

No dia seguinte, ainda saboreando o gosto, o perfume e a voz lúbrica de Júlia, Dom iniciou o expediente na intenção de agradecer novamente Machado pelo jantar. Quando penetrou na sala do diretor sua primeira visão foi o pincenê, aquela esfinge pendurada no semblante pétreo, o busto de bronze da repartição, como se referiam outros colegas ao seu chefe. Intimidado, desistiu da mesura. Duas semanas correram sem novidades, até que em um fim de tarde Dom foi convocado à mesa de Machado, ele queria noticiar uma promoção, o jovem passaria ao posto de notário do escritório. Não havia emoção na voz de Machado, Dom teve a sensação de perceber, inclusive, uma entonação tensa nas palavras. Estava próximo ao encerramento das tarefas e Machado sugeriu que Dom o acompanhasse à Livraria Garnier.

Caminhavam pelo frenético crepúsculo da rua do Ouvidor, Dom tentou comentar com o chefe seu projeto de viajar para São João Marcos atrás de Júlia, mas Machado mudou de assunto e perguntou-lhe quais seus livros preferidos. Dom não tinha nenhum além de Memórias Póstumas, mas preferiu não revelar ao mestre com receio da reação de sua extrema modéstia, acabou dizendo que não nutria preferências. Machado torceu o nariz, como se estivesse decepcionado. Na livraria, Dom reconheceu presenças familiares, escritores famosos das rodas eruditas, sentiu-se um invasor em uma ilha de titãs. Despediu-se recebendo como presente do escritor um exemplar de “Otelo, o mouro de Veneza”, de Shakespeare. Dom não compreendia os propósitos camuflados de Machado, mas não duvidava de que existissem.

Um mês se passou, Dom executava com louvor as novas responsabilidades e Machado o supervisionava com orgulho discreto e controlado. O aprendiz de notário cogitava realizar uma viagem para rever Júlia em São João Marcos e abrir seus sentimentos por ela. Não conseguiu esquecê-la nem o beijo. Em uma sexta-feira, Dom foi chamado à mesa do diretor, que em silêncio retirou dois vistosos envelopes de uma gaveta, havia neles desenhos de letras douradas. Machado olhou para Dom por cima do pincenê, a imutável esfinge petrificada em seu rosto.

– Preferi não o comunicar antes para não interferir no seu desenvolvimento profissional.

Dom franziu o cenho intrigado e Machado estendeu a ele um dos envelopes. Dom abriu, era o convite para o casamento de Júlia com um cidadão chamado Orestes Duarte Paranhos. Toda a nobreza do jovem negro desabou naquele instante, por pouco não se debulhou em soluços e lágrimas sobre o peito do chefe, mas uma furtiva gota salgada escorreu-lhe por uma das bochechas. Virou-se para Machado como quem procura uma boia em meio ao mar revolto. Firme e impassível, o renomado literato emitiu sua sentença.

– Não seja pueril.

Os olhos de Dom se reergueram, não mais molhados, mas em chamas. Toda a adoração, todo o culto por aquele homem célebre se converteu na mais profunda mágoa, só foi necessário um átimo de segundo e uma frase mal pronunciada para essa eclosão. Antes que Dom se retirasse, Machado puxou um livro de dentro da mesma gaveta, anotou frases breves com a agilidade da pena e o entregou ao rapaz. “Quincas Borba”, o título. Dom leu a dedicatória.

“Tudo chorando seria monótono, tudo rindo cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida…” Do seu sempre companheiro, M.A.

Dom solicitou transferência para outra repartição, mesmo em prejuízo do cargo que havia conquistado. Não conseguiria mais conviver com o homem desapiedado que passou simbolizar para ele a imagem de um iceberg. A transferência foi concedida. O tempo correu por longos doze anos, Dom, homem feito, não se casou e não teve contato com Machado novamente. Leitor de jornais, soube através de um obituário que Júlia morreu durante uma epidemia de febre amarela em São João Marcos. Teve uma filha e o marido continuava vivo. Dom foi tomado por uma tristeza esmagadora e decidiu viajar para São João. Na hipótese mais frustrada, a viagem serviria para rever a cidade que conheceu na infância, embora não fosse possível prever o que poderia reencontrar. Queria acender uma vela e dedicar uma oração ao seu antigo e único amor, o sonho irrealizado. Cumpriu o roteiro, pisou em São João Marcos nos idos de outubro de 1904, era uma tarde nublada. O que viu se assemelhava a uma vila decadente, corredores de humildes casas brancas e um Centro pomposo que já não correspondia à atmosfera desafortunada do lugar. Ali, o longevo império do café tombava. Assistiu à missa no imponente e descomunal cenário barroco da Igreja da Matriz, onde emergiram lembranças sobre o seu bom pai. No fim da cerimônia, aproximou-se do padre e perguntou se conhecia a família do finado barão Pereira Matoso, se conheceu Júlia. O sacerdote demonstrou que sim e elogiou a finada. Dom imaginou o que poderia ter sido a sua história se houvesse arrebatado Júlia na noite do beijo. O tempo sepultou sua existência imaginária.

De volta ao Rio, Dom escutou os rumores sobre o óbito de dona Carolina, o enterro já havia ocorrido. Depois de tantos anos, foi obrigado a se lembrar de Machado. A morte da boa senhora pesou no peito de Dom. Hesitou muito antes de se decidir a prestar condolências ao seu primeiro chefe. Guardava absoluta certeza de que Machado, amarrado às regras e à rotina, estaria no Ministério, a despeito da ferida emocional. Diante da porta do escritório, estancou ao ver o inarredável pincenê desalinhado na fronte do envelhecido do escritor, o solitário busto de bronze dissolvia-se na transpiração da melancolia. Dom aproximou-se com a mão estendida e deu com os olhos úmidos de Machado. Na mudez atemporal do universo, consolaram-se.

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