o táxi como alma urbana

Existem profissões que se misturam com a cidade, com sua história, com suas paisagens e habitantes. Com certeza, o táxi representa uma dessas profissões, não à toa a prefeitura do Rio o tombou como patrimônio cultural.

O taxista é o mapa da cidade, dos seus becos, das avenidas, ruas, praças, pontes e estradas. É o taxista que carrega a biografia dos habitantes, é o ouvinte silencioso, o conversador entusiasmado, é o reflexo e o eco de cada passageiro que transporta. O táxi não é somente um carro amarelo com um bigorrilho em seu teto, ele é a identidade carioca. É o taxista que conhece o afeto e a brutalidade, os caminhos e os descaminhos que desenham a geografia do Rio. Qualquer pessoa, empresa ou cidade que descaracteriza uma de suas marcas fundamentais, se arrisca a perder a alma, o charme e a graça. Quando os políticos e o Judiciário permitiram o funcionamento do Uber e de outros aplicativos, sangraram o rosto da cidade, a deformaram, violaram a sua personalidade.

Quantos taxistas construíram casas, constituíram família, formaram os filhos com a honestidade e o orgulho de segurar um volante? Quando o Uber foi permitido, ele não gerou empregos, mas trouxe a indignidade. A indignidade da exploração vergonhosa do trabalho e da concorrência escandalosamente desleal com quem já estava estabelecido no ofício. O táxi, que finalmente havia conquistado o status de profissão, foi rebaixado, aviltado, empurrado pelo marketing da injúria genérica para a vala comum dos indigentes. Sim, os taxistas resistem, mas não é fácil lutar contra essas imensas corporações estrangeiras que não estão preocupadas com pessoas, o que planejam é descartá-las quando concluírem o projeto de um carro autônomo, em que o motorista seja a ideia remota do fóssil de um trabalhador extinto. Dizem que é impossível deter ou retardar o progresso, no entanto, é possível humanizá-lo. A página da Revolução Industrial e dos seus desdobramentos demonstram isso.

A cada passo à frente, surge a percepção de que o homem quer deixar o próprio homem para trás. É nessa marcha que cresce o número de miseráveis, dos marginalizados, da fome e do desabrigo. Um motorista de Uber não é um taxista, é um teleguiado pela inteligência artificial que dita seus diálogos, comportamento e reações. O motorista de aplicativo é o derivado de um robô, não possui a espontaneidade, o amor à profissão, não tem o taxímetro marcando o valor justo pelo seu tempo e esforço árduo na direção de um carro que se propõe a nos transportar pelos rumos que escolhemos. O motorista de aplicativos é um curioso na maioria das vezes ou então um indivíduo em colapso social que aceita ser abusado, aviltado pelo desejo de lucro de multinacionais. A quem essa perversidade beneficiou? Aos imorais, que se regozijam em pagar pouco sem se importar com a dignidade de quem lhe presta o serviço e às multinacionais que exploram de maneira indecorosa àqueles que se sujeitam às suas regras.

Talvez, seja esta a palavra que melhor defina o episódio da depreciação dos táxis em favor das multinacionais, foi uma imoralidade coletiva, destituída de qualquer consciência, do mínimo escrúpulo, de qualquer vestígio de ética. Implodiram uma profissão como a criança que mata um inseto, sem remorso, sem olhar nos olhos do semelhante. Apesar dos reveses, os taxistas insistem em sobreviver, fluem perseverantes como sangue amarelo pelas veias da cidade, não a abandonaram, continuam mostrando que são a alma viva das ruas. A imprensa abafa os crimes, os malfeitos, as mortes, os acidentes e os descalabros cometidos pelos motoristas inexperientes que atendem pelos aplicativos; a mesma imprensa que agiu com a ânsia de um carrasco quando quis aniquilar os taxistas.  

Tentaram, mas não conseguiram exterminar os amarelinhos. O taxista guarda e conta a história carioca desde que era chamado de chauffeur, nos melhores tempos do Rio antigo. É possível ferir, prejudicar, aleijar, mas é custoso eliminar o que representa a nossa própria memória. O Uber e os aplicativos retratam um robô frio e indiferente a quem o serve e a quem o aceita. O táxi não. O taxista é o rosto humano que comete erros e acertos, mas que nunca perde de vista a rota que conduz ao horizonte que todos nós queremos alcançar.

2 comentários

  1. Como sempre , seus textos me emocionam e me dar mas forças pra continuar lutando pela minha profissão, obrigado Alexandre por ser esse companheiro fiel .

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