Desconexo

1

Quando o Sol se libertou da breve nuvem desgarrada que interrompeu o seu monólogo, raios intempestivos e furiosos atravessaram a atmosfera para fustigar os olhos de Tobias, que naquele momento despertou de si mesmo, numa sensação de quem caiu da nuvem que se desfez. De súbito, foi lançado sobre a partitura labiríntica da vida. Os automóveis roncando, sons de buzinas nervosas, a poeira que subia do asfalto, as faces estranhas e indiferentes, tudo parecia um açoite a atacá-lo com sanha implacável. Ele se acomodou no banco da praça, coração acelerado. Tentou buscar o sossego da mente controlando a respiração e seguindo conselhos do médico.  

Tobias tinha aquela praça bucólica e ruidosa, à margem de uma pista movimentada, como um santuário. Ali, tudo lembrava a infância distante, foi em um daqueles bancos que experimentou o seu último amor romântico. Jamais esqueceu Lúcia, não se negava a admitir que regressava sempre à praça para esperá-la no cenário do derradeiro encontro. Mais de trinta anos se passaram, ele não desistiu. Foi na praça a última vez que a viu, o adeus. O que especialistas chamavam de obsessão, Tobias entendia como paixão. Sentava-se como se guardasse a crença não confessada de que o tempo poderia retroagir, mas o tempo só seguia o curso inabalável do desprezo pelos homens. Tobias ficara acorrentado ao passado sem conseguir conter o avanço do calendário. Na sua percepção não existia o presente, somente o amanhã que rejeitava e o outrora que idealizava. Pairava num limbo pessoal.

Esforçava-se para visitar diariamente a praça, não perdia a esperança de reencontrar Lúcia sentada no banco que fez o palco do romance que viveram. Lúcia o menosprezou, soprava a voz que ele renegava. Se não amou, esteve perto de amá-lo – era o que Tobias respondia à voz que cochichava dentro dele. Geralmente, chegava à praça no meio da tarde e mirava o banco vazio. O banco refletia um vácuo na paisagem frequentada por casais juvenis e crianças agitadas. Se algum curioso percebesse a presença quase diária de Tobias, veria um senhor grisalho remexendo no celular e mirando ocasionalmente para a mesma direção, um par de olhos perdidos num universo desconexo e destituído de gravidade.

Seus poucos conhecidos agora se resumiam a contatos virtuais pelo WhatsApp e Facebook, não possuía emprego, morava com a irmã viúva e nela se apoiava para sobreviver. Existia numa rotina claustrofóbica. Tomava remédios contra a sua tendência depressiva, mas nunca sentiu efeito algum que indicasse a melhora da condição. Gostava de se vestir com roupas escuras, o que denunciava o seu comportamento fechado e formal com todos que se aproximavam. Falava pouco. Um solitário engolido pela nostalgia crônica dos seus melhores dias.

Não havia mais referenciais em sua vida, ele cultivava com fervor aquela lembrança órfã, agarrava-se à memória de Lúcia. Perdeu a conta de quantas vezes assistiu ao filme “Em algum lugar do passado”. Deitava-se na cama e tentava viajar no tempo usando o mesmo método do personagem do Christopher Reeve. Tobias havia submergido num mundo imaginário, onde a lembrança de Lúcia era uma fotografia velha e desbotada que se fixava como única representação tolerável do cotidiano.

Ele levava no bolso um pequeno recipiente de vidro com um líquido que inalava como se consumisse uma droga. Mistura de almíscar com odor de rosas, o perfume usado por Lúcia quando conviveram. Aquele aroma o transportava, sua máquina do tempo, sua ponte para a irrealidade. O universo inteiro que almejava cabia num frasco de perfume, onde suas melhores recordações estavam dissolvidas.

A irmã nunca conheceu Lúcia, ouviu algumas vezes Tobias conversando ao celular com alguém que afirmava ser a sua namorada. Nunca conseguiu escutar a voz dela. Certo dia, tentou procurar o perfil da mulher nas Redes Sociais utilizando o nome e o sobrenome que leu furtivamente na agenda do irmão. Mostrou a ele a foto de uma senhora que tinha com ela amigos em comum no Facebook e perguntou se aquela seria Lúcia. Tobias fitou a imagem do rosto gasto, emoldurado por fios brancos de cabelos mal arrumados e sustentados por um corpo esférico. Uma náusea vertiginosa subiu-lhe do estômago. Em seguida, sem dizer qualquer palavra, levantou-se e se trancou no quarto. Não suportava a erosão da face, das curvas.

Talvez o obstinado leitor destas linhas, que visita o obscuro cômodo da psique humana aqui retratado, esteja esperando por uma virada, algo que dê sentido à narrativa, que corresponda às boas fórmulas literárias, que sirva para mantê-lo atento à leitura. A irracionalidade é transgressora, despreza padrões. Infelizmente, assumindo o risco do seu precoce desinteresse, não posso prometer nada. Tobias é um indivíduo que somente espera. O que se pode prever de um homem em que a mais excêntrica e exclusiva emoção se limita à expectativa do improvável?

Planejava retornar ao Mosteiro de São Bento, uma construção do século 17 que marcou o primeiro passeio com Lúcia. Ficaram frente a frente no pátio da igreja. Por entre as árvores frondosas, os raios de sol reluziam sobre a pele alva da amada. Inesquecível. Os lábios rubros de Lúcia, o sorriso insinuado. Tobias guardava aquela visão como o quadro mais valioso da sua galeria de reminiscências pessoais. Agora, por alguma razão que ele desconhecia, tudo parecia um devaneio.

Houve a ocasião em que ela o chamou de louco. Louco?! Louco por que não aceitava o adeus? Louco por fingir não a flagrar beijando outro homem num lugar público, numa hedionda traição ao seu amor silencioso? Quando falamos em loucos imaginamos sujeitos agressivos, perigosos, descontrolados. Tobias é educado, passivo, frágil e ingênuo, mas se considera determinado. Insistiu em Lúcia até que ela desaparecesse.

Além de Lúcia, quantas pessoas o chamaram de louco? Telefonavam à sua irmã para dizer que ele tinha problemas. Só podia concluir que amar demais é loucura, que insistir no amor é desvario. Tobias se alimentava da paixões febris, Lúcia foi a maior delas. Intempéries que o estagnavam. Quando a febre emocional cessava, ele se via como um homem acordando num futuro desconhecido, um neandertal entre computadores e luzes ofuscantes. O tempo tinha passado, ele não. Uma existência sem enredo.

Depois que se afastaram, percorreu por sucessivos dias a rua em que ela morava. A fantasia de estar perto, de esbarrar com Lúcia na esquina. Decidiu escrever uma carta, marcar um encontro, informou data e hora à revelia do destinatário. Estava lá, pontualmente, no dia marcado. Nada. Ninguém. Passou horas esperando a sua quimera num ato triste de masoquismo. Costumava brincar consigo mesmo dizendo que seu corpo era composto por 70% de mágoas, não de água. Evitava a autopiedade, engolia o choro, mas não considerava justo o destino que lhe coube. Acreditava no destino como força, não como vontade. Um barco à deriva, à deriva. Se a leitura está desagradável, você constata o óbvio, perseverante leitor. A loucura causa desconforto e é capaz de nos constranger quando identificamos nela pequenas semelhanças do que somos.

A idade o tornou mais sereno. Começou a apreciar a paz do espírito. Ultrapassava os sessenta anos sem reconhecer a decadência física. O velho no espelho não era ele. Negava os decretos da natureza. Em vão. Lia, lia muito, lia compulsivamente. A leitura o consolava. Queria aprender a pintar. Não aprendeu. Procrastinava. A contemplação o jogava numa melancolia viciosa, inescapável.

– Pode falar sobre você? – Pediram a ele em uma entrevista para emprego.

Tobias travou. Mudo. Não sabia quem era. Um estranho. Aquela pergunta o fez cadáver. Ele existia sem existir. Um morto indigente boiando na multidão. À deriva, à deriva. Nunca mais conseguiu ser aprovado em entrevistas para empregos. Aquilo feria sua autoestima, até que não se importou mais, não procurou mais. Não o compreendiam. A diferença não é aceita, ele supôs. Numa das últimas oportunidades em que se candidatou a um trabalho, entregaram-lhe um formulário e num dos campos pediam que identificasse sua cor. Olhou a própria pele, não sabia definir. Branco, negro, pardo? Nada se mostrava nítido ou ele não queria que parecesse nítido. Pegou a caneta e preencheu o campo da pergunta: embaçado.

2

Era atormentado por sonhos que só se consumavam em pesadelos quando ele despertava. Sonhos em que estava novamente com os colegas, num escritório longínquo em que trabalhou. Brindava, ria. Quando abria os olhos, se angustiava, trêmulo. Um receio constante de ter cometido algum crime que esqueceu. Apreensão. Encolhia-se presumindo que a qualquer momento os homens de branco pudessem encarcerá-lo numa cela inóspita e fria.

– O que eu fiz? – Perguntava-se.

Em dias assim ele se esgueirava pelos cantos das sarjetas. Repulsa de gente. O médico o diagnosticou como sociofóbico. As caixas de remédio sobre a sua mesa de cabeceira emanavam um colorido decorativo, Tobias gostava de arrumá-las simetricamente.

Alguém o seguia. Para ele, invariavelmente, alguém o seguia. Olhava para trás. A cabeça zunia. As dores de cabeça constantes. Um zumbido no ouvido que o assustava quando evoluía num coro de vozes queixosas. Sua cabeça vivia cheia de fantasmas – ele revelava à irmã indulgente. Sua existência rodeada de sombras. Cada passo que dava movia o silêncio das assombrações. Refugiava-se como podia em distrações fugazes, mas os fantasmas o perseguiam. Bebia, contrariando as recomendações do seu psiquiatra. Não bebia muito, tinha o fígado fraco para o álcool. Quando leu as cartas de Van Gogh, comoveu-se demais. Van Gogh o compreenderia. Seriam amigos, grandes amigos. O pensamento de Tobias jorrava como torrente caudalosa, rompia todas as represas que ele tentava impor. Queria parar de pensar. Parar de pensar. Aos poucos, cansava-se. Exaustão. Sentia sono de repente, muito sono. Redemoinho. Adormecia afogado em sua correnteza.

3

Naquela manhã de março, ele acordou com um instinto de urgência, passou o dia inquieto, com uma ansiedade que pressionava o coração num pressentimento intraduzível. Sem fome, não almoçou. Assistiu aos jornais da TV, tentou ler um livro. Desconcentrava-se, embora os seus sentidos estivessem com a sensibilidade à flor da pele. Sufocado, deixou o apartamento e rumou para a pracinha que o acalmava. O céu negro, dominado por nuvens ameaçadoras, não o intimidou. Unidas e resolutas, as nuvens dominaram o Sol e a luz. Tobias rompeu a calçada numa cena tingida de cinza. Chegou à praça sob o som de trovões e faíscas de relâmpagos. Nada deteve a sua marcha até alcançar o seu banco cativo. Num bar próximo, do outro lado da pista, com o som do rádio de um carro ligado em alto volume, um grupo de jovens bebia alheio ao prenúncio da tempestade.

Assim que se sentou, Tobias ressentiu-se dos primeiros pingos que lhe bateram na testa, gotas volumosas que despencaram forte em cima dele, como se quisessem acordá-lo daquele torpor antigo. Da terra molhada subiu um aroma de alívio que invadiu o seu olfato, remetia ao cheiro de rosas, de almíscar, ao perfume de Lúcia. Sem mais cerimônias, o temporal desabou como o teto de uma casa em ruínas. Com a vista turva pela chuva, Tobias distinguiu uma mulher surgindo da mesma direção que Lúcia costumava vir. Cabelos compridos e negros, a tez pálida, os olhos de um castanho vívido e delicado, o sorriso de dentes com uma suave desarmonia que arrematava a imperfeição da legítima beleza. Tobias se ergueu incrédulo. Era Lúcia. Correu ofegante ao seu encontro. Ao longe, emergindo de onde estavam o grupo de jovens, um som ganhou potência. A voz de Renato Russo cantando “Tempo Perdido” embalou o abraço apoteótico que reuniu, após trinta anos, Lúcia e Tobias. Cantaram e dançaram juntos a música que celebravam na década de 80.

A curiosidade dos jovens abrigados no bar do outro lado da praça testemunhava inerte aquele homem envelhecido dançando sozinho sobre a grama. Com olhar eufórico e alienado, ele abraçava a si mesmo, num ritual intenso de alegria intangível. Naquele picadeiro deserto, regido pelo ruído do dilúvio, gritava com todos os pulmões a letra de “Tempo Perdido”. A água escorria pelo seu rosto, inundava suas roupas, diluía-se em seus sapatos. Lúcia e Tobias tornaram-se presença uníssona, a convergência uniforme de uma única consciência tortuosa. Cantando e rodopiando, num êxtase de si mesmo, lançava os braços no ar como se estivesse envolvendo uma entidade etérea e desejada.

“Veja o sol dessa manhã tão cinza, A tempestade que chega é da cor dos teus olhos
castanhos…”

O pragmatismo dos jovens não compreendia o que só se faz visível aos delírios e às ilusões que materializam a felicidade das almas irremediavelmente naufragadas. A loucura é um Robson Crusoé que encontra a sua ilha. Em meio à tormenta, Tobias finalmente desembarcava na plenitude refratária do ilhéu remoto que a maioria dos homens teme aportar. Solidão ecoando solidão.

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