no divã

Estive pela primeira vez em uma psicóloga. Decidi ir motivado por amigos, para tentar compreender e diluir as ondas de depressão e ansiedade que me assolam em alguns momentos, principalmente após o falecimento do meu pai. No fim da sessão, experimentei o sentimento de que isso não irá me ajudar no meu reencontro comigo. Não é para mim. Apesar dessa impressão, houve um momento interessante, quando a psicóloga me fez uma pergunta simples.

— O que você deseja? — Ela questionou.

Naquele instante não me ocorreu nada que não parecesse banal. Fiquei sem resposta. Porém, assim que deixei o consultório, uma frase piscou em neon na minha mente: Queria ser eu, capaz de existir sem alugar a minha alma. Lembrei-me das tantas vezes aluguei minha alma para ter um salário, um emprego e o quanto terminei oprimido por essas escolhas. Desistia porque não suportava ficar preso a uma obrigação que me sufocava após alguns anos. Nunca enxerguei perspectiva promissora se não me integrasse ao sistema. Fui conquistando e abandonando caminhos. Um conjunto de fragmentos sem encaixe. Do nada, no meio dessas filosofices, me peguei pensando em personagens extraordinários. Gauguin, Van Gogh, Zola, Rimbaud, todos escolheram caminhos que os refletiam. Abdicaram, renunciaram, tomaram partido, enlouqueceram, mas não entregaram a alma. Obstinação. Todos eles destemidos. Escolher-se pode ser trágico, mas não se escolher é um abismo inevitável. Tive amigos que seguiram pelo teatro, pela música, pela escrita e colheram sucesso porque não se desviaram do que eram. Eu insisti no sistema, envelheci insistindo. Indisciplinado. Não alcancei nem um nem outro. Não me inspirei por aqueles que admirava, me convenci de que não podia escapar do convencional e me esforcei para continuar incluído no convencional. Não me atrevi a fugir com o circo.

— O que você deseja?

Se ela me perguntasse novamente, eu responderia: Tudo o que eu não tive determinação e coragem de ser.

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