Resenha paulo lima

HISTÓRIAS DE DESENREDOS

No conto que encerra o livro “Amor de cinema”, o narrador afirma o seguinte: “Meu caro, vida é uma sucessão vertiginosa de desenredos vertiginosos”.

É como se a frase pudesse nos dar a chave para as histórias que compõem o volume, que saiu pela Sumário, marcando a estreia do autor, Alexandre Coslei, como editor.

São 16 contos que têm como pano de fundo as muitas faces do Rio de Janeiro, do presente e do passado. Imagens da cidade ilustram cada conto, como frames de um filme. Ao final, tem-se um anexo que o autor intitulou “Cenas cariocas”, com algumas fotos da cidade.

Esses anti-cartões postais ecoam os dramas suburbanos dos personagens de cada conto, escritos com linguagem exuberante e imagens vigorosas que dão uma medida da intensidade das paixões retratadas.

Não constitui exagero dizer que, com seu estilo, Alexandre combina um certo rigor machadiano com a sabedoria e a eloquência nelsonrodrigueana dos pequenos dramas amorosos, e com a disposição de flâneur de um João do Rio.

Seus personagens, enredados na melancolia, solidão, nostalgia, amores desfeitos ou impossíveis, carregam nos ombros todas as dores do mundo, e questionam esse mundo através de constantes discussões filosóficas.

São contos normalmente curtos, porém adensados pela grandiosidade das metáforas com que Alexandre desenha cada drama em particular.

No conto que dá título ao livro, um homem amarga uma separação e descobre novo refúgio e sentido num cinema pornô de subúrbio. A atual crise sanitária se faz presente no conto “Destroços”, estruturado em forma de diário. Em “Os olhos do abutre” e em “Homicídio”, temos os registros de crimes que, por seu desenrolar, nos levam a pensar num eco rubensfonsequiano. Em “À margem”, único conto em que a ação se desloca para Manaus, tem-se a exploração de um amor virtual que envolve também um exercício de metaliteratura.

Alexandre se permite ainda investir num conto de fundo histórico, “Atemporal”, que tem como personagem ninguém menos que um casmurro… Machado de Assis.

Ainda no conto “Desenredo”, que fecha o volume, o personagem reflete: “O Rio é uma cidade soterrada, aterrada, sepultada viva. Ressuscitado, João do Rio só reencontraria a alma encantadora das ruas se voltasse como arqueólogo, não como cronista”. Eis uma conclusão que talvez se aplique a Alexandre Coslei e seus contos que recuperam vidas perdidas na voragem da cidade e do tempo.

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