resenha do escritor marcos kirst

Sou leitor frequente das obras de Alexandre Coslei. Tenho comigo quatro títulos: Subversões, Os Paralelepípedos da Vila Mimosa, Indigentes Literários (Kindle), e o mais recente, Amor de Cinema.

O autor, jornalista de profissão e editor de seu próprio livro, escreve com a desenvoltura de quem sabe o que faz. Tem opiniões ácidas sobre política, neoliberalismo, mercado editorial, gurus corporativos e meritocracia, entre outros. Quem ainda não leu o que ele escreve com paixão, fica a sugestão de boa leitura.

Depois de conhecer personagens extraordinárias da Vila Mimosa, uma das quais invocava e recebia o espírito dr. Freud para aconselhamento sentimental na cama do puteiro, vou me ater aos novatos do último livro. Como os demais, esses também flanam pelas ruas do Rio de Janeiro, quase sempre na zona central, mas também podem ser encontrados em Copacabana, nos botecos da Lapa, no Bairro Peixoto ou vagando pelas ruas do subúrbio. É nas ruas cariocas que o autor busca inspiração para atualizar os costumes de criaturas literárias inauguradas por Nelson Rodrigues.

No livro mais recente, os personagens estão trancados em quarentenas, sejam elas mentais ou pandêmicas. Frequentam cinemas que exibem filmes pornôs. A decadência é geral, mas a humana é a mais tocante. Vivem em busca do amor, cultivam saudades, padecem de solidão, realimentam fracassos, perdem-se em desencontros, padecem de moléstias do corpo e da alma, amargam traições e suplícios de vidas passadas ainda antes de morrer.

São seres de quem a vida liquidou a ambição e empurrou para a margem. São pessoas que perderam a bússola da esperança, do desejo e a força do amor-próprio. Vagam carregando amores impossíveis que o tempo desgastou e transformou em fantasmas. Mas nem tudo é tristeza no cenário de Amor de Cinema: há sempre a ironia peculiar do autor que observa a multidão e sabe localizar com precisão personagens trôpegos. Como a meretriz que lê a alma do freguês enquanto beija inoculando a obsessão persecutória dos seus olhos de abutre. Tem o diabético Osvaldo, desertor do sexo (e da vida), que busca satisfação em outros caprichos. Tomou-se de súbita paixão por formigas, impunes devoradoras de quindins. Tinha respeito e admiração pela voracidade de seu formigueiro porque elas entendiam sua esganação calórica. Há também a indicação da fórmula infalível para curar a depressão: duas doses de caninha e uma de catuaba. Basta isso para você descobrir que está vivo. Se não resolver, siga os ensinamentos do Marques de Sade ou a terapia radical para curar desenganos e olhares de desdém da pessoa amada. Se não funcionar pra você, recorra à psiquiatria. Trate-se com a doutora polonesa que manda substituir a leitura do libertino marques pelo escritor austríaco Sacher-Masoch. Descubra que a leitura é mais eficiente do que eletrochoques. No conto Destroços, um relato da saga solitária de um desempregado que vê o desfile das estações do ano de 2020, e mais uma de 2021, que acabam e consomem suas economias. Em dias demasiadamente longos, arrasta-se entre a janela do apartamento e a tela da tevê que exibe sempre o mesmo noticiário em todos os canais. Desgoverno, desemprego, fome, luto e mortes solitárias. Pela janela, vê o convidativo e traiçoeiro céu azul outonal. Percebe que a natureza não trata ninguém com ironia: seu deboche é escrachado (acho que você sabe bem o que é isso).

Ao todo, são 16 contos muito bem escritos em primeira ou terceira pessoa. Por último destaco a descoberta do amor por Diogo Sombra, filho de uma mulher que teve vida árida por ser viúva de marido vivo. O paradeiro do pai ausente era desconhecido até a chegada de uma carta. “Seu pai delira, recebeu extrema-unção, pede sua presença, venha rápido. Laura”.

Eis a chave do mistério. Eis a chaga que se abre na memória para nunca mais fechar. Como são os contos de Alexandre Coslei.

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