meu pai

𝗠𝗲𝘂 𝗽𝗮𝗶 𝗳𝗮𝗹𝗲𝗰𝗲𝘂 𝗵𝗮́ 𝘀𝗲𝗶𝘀 𝗺𝗲𝘀𝗲𝘀, 𝘂𝗺𝗮 𝗱𝗼𝗿 𝗾𝘂𝗲 𝗮𝗶𝗻𝗱𝗮 𝘃𝗶𝗯𝗿𝗮. Seu velório foi tão triste quanto a sua saída de cena. Além de mim, somente duas pessoas estavam presentes, meu irmão e uma vizinha solidária. A pandemia causou perdas e agravou a angústia da perda. De frente para o corpo apagado, não reconhecia meu pai, era um abismo. Meu pai não morreu pelo vírus, morreu por um tropeço fatal. A vida inteira lutou contra um glaucoma implacável, que na juventude roubou-lhe um dos olhos e aos setenta anos escureceu de vez a sua visão. Um tropeço o fez eterno.

Um homem simples, mais ligado aos números do que às letras. Funcionário público, fez carreira até atingir a máxima posição que o seu órgão permitia. Nos muitos apertos que passou nos seus 83 anos, se virava nos trinta, dava um jeito. No leito da UTI, estava preocupado em pagar as contas da casa, em sair até o Natal para não decepcionar minha mãe. Nunca vi meu pai triste, mesmo cego não perdeu o humor. Alegre, brincalhão, debochava da própria condição trágica que a vida lhe impôs. Jamais perdeu a esperança de voltar a enxergar, um otimista. Seu círculo fiel fomos nós, a família. Meu pai emanava uma luz que rompia o blecaute dos seus olhos. Tantas vezes me fez rir, tantas vezes fez rir quem o rodeava. Eu quis escrever antes para homenageá-lo, mas não conseguia. A vista embaça durante a busca das palavras.

Antes de perder a visão, meu pai lia jornais compulsivamente, do início ao fim. Gostava de estar sintonizado com o mundo. À noite, pegava seu radinho de pilha e ia para o portão de casa ouvir um jogo de futebol com o Vasco ou um programa qualquer. Meu pai adorava rádio e talvez o rádio tenha sido o seu consolo anunciado quando os olhos se foram. Meu pai ficou cego, mas nunca triste. No portão, com seu radinho, colecionava amigos. Preferia gente simples, era o “𝑡𝑖𝑜” dos porteiros, o 𝑝𝑎𝑑𝑟𝑖𝑛ℎ𝑜 de quem pedia ajuda ou buscava uma conversa. Um homem bom, generoso. Santo? Não. Se fosse santo, seria perfeito, mas meu pai não almejava a perfeição, preferia ser humano.

Meu pai foi o meu horizonte. Diante dele, em uma capela do cemitério do Caju, a sua ausência refletia um precipício. De repente, transbordei em um choro incontido. Meu pai não gostaria daquela cena, meu pai nunca foi triste. Pedi perdão, mas não dava para evitar o desalento daquela morte neste mundo devastado. Eu, a vizinha, meu irmão e o corpo inerte do meu pai deitado entre flores. Nunca senti tanta solidão.

Agarrei-me à solidariedade das pessoas que tentaram me confortar. O único fato que o magoava era a falta de afeto; o desprezo esnobe; gente que, no fim, não ofereceu nem sequer os pêsames. Meu pai não foi triste, foi um amoroso e talvez eu tenha herdado isso dele.

A morte traz arrependimentos. Queria ter me lançado em um último abraço. Queria que tivéssemos ido comemorar todo o seu amor imenso num daqueles rodízios de churrasco que você tanto gostava e me fez gostar. Queria ter dito uma última vez o que eu disse tão pouco, tão pouco durante o privilégio da sua companhia… Que a minha escrita diga agora por mim. Amo você, meu pai. Obrigado por tudo.

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