DESESPERANÇA

Sempre cortei o cabelo no mesmo lugar da Tijuca, desde que me entendo por gente. Um salão simples, no melhor miolo tijucano. Presenciei gerações de barbeiros passarem por lá, mas me mantive fiel ao dono do estabelecimento. Há alguns anos, um rapaz começou a trabalhar no local. Quando o proprietário não estava presente, eu alternava o atendimento com o novo funcionário. Simpático, carismático, possuía muitos clientes. Não devia ter mais de 40 anos de idade. Ontem, estive no salão e percebi a cadeira do rapaz vazia, não havia nada sobre o seu console, o dono veio me dar a notícia trágica. Rogério era o nome do barbeiro, contraiu covid e em uma semana faleceu da doença. Fiquei chocadíssimo. Deixou quatro filhos. Para ele, também não houve tempo de salvação.

Se é um clichê o que irei expor, não sei. O Brasil é um país horrível, vivemos entre a morte, a miséria, a fome, o desemprego, em condições precárias de existência, salários vergonhosos, reformas que promovem ainda mais pobreza, acuados diante da violência crescente, regidos por políticos liberais absolutamente insensíveis ou por progressistas fragilizados e oprimidos em sua luta pelo resgate de todos nós. Um país de esperanças sempre sepultadas.

Aos poucos, o sonho que resta é o de um exílio imaginário, que pudesse nos reviver como pessoas que buscam um horizonte. No Brasil, não se vê o horizonte. Ficamos querendo o passado porque o presente e o futuro são inegavelmente piores. A vida aqui é uma jornada tenebrosa, limitada. Alcancei um ponto máximo de ceticismo, um bom líder que assuma o poder talvez seja capaz de me causar alívio, mas não fé. Tudo de bom que se constrói neste país se destrói com um sopro. A evolução social é um cristal que aqui se quebra com um peteleco. A ditatura foi uma ausência de alma; a redemocratização, uma festa passageira; a eleição de Bolsonaro é o retorno à nossa natureza submissa ao sadismo, à ignorância, ao elitismo, à adoração de ídolos de ocasião. Não somos e nunca fomos luta, somos rendição. Um país triste e escandalosamente cruel. Nossa identidade é o mal, a indiferença, a busca por um pedestal que nos faça assistir a desgraça alheia a uma distância segura e limpa.

Um comentário

  1. Não há dúvida de que este quadro exista. Outros mundos possíveis, paralelos, criados pela imaginação, existem também… Se não é o “otimismo da vontade” na busca de criação de algo útil e seríamos soterrados pelo “ceticismo da razão”, que embora seja útil, em excesso pode nos conduzir ao desespero. Que resistamos!

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