Perversão literária

Sou reincidente na reflexão sobre alguns temas, talvez na ânsia de compreendê-los mais profundamente. Neste texto, me empenho em nova tentativa.

Em palestra na Academia Brasileira de Letras, em março de 2014, o professor João Cesar de Castro Rocha discorreu, entre outros pontos, sobre a pluralidade no cenário contemporâneo da literatura brasileira, que ele atesta como legítima característica deste começo de século. Não me é possível concordar com tal afirmação e sigo no sentido oposto, não há pluralidade alguma no cenário atual da nossa literatura. Cresce, cada vez mais, o monopólio da literatura comercial, pueril e descartável. Há, além disso, uma valorização excessiva e crescente das editoras nacionais pelos best-sellers estrangeiros; complementa-se a isso a proliferação de oficinas de escrita que orbitam em torno de um único método, pasteurizam o autor brasileiro. Sim, existe um empenho em nivelar por baixo, em popularizar pelo medíocre, em rebaixar o vocabulário. É uma regra que deixa vazar exceções, como o recente sucesso “Torto Arado” (de Itamar Vieira Júnior), mas para não fugir demais ao sistema prevalecente ele fez sucesso de fora para dentro, confirmando as expectativas do nosso comportamento colonizado. Torna-se um ponto mais perturbador quando acompanhamos a lista dos mais vendidos em nosso país e nos deparamos com somente um título nacional (justamente “Torto Arado”) perdido entre uma série de traduções de importados.

Podemos querer dourar a pílula, mas a realidade se impõe. O Brasil não padece apenas da deterioração intelectual da crítica em diversos segmentos, mas sofre também com a extinção de uma estrutura editorial competente, que seja capaz da reordenar a literatura brasileira diante da torrencial produção corrente. Não se trata de opinião de um articulista amargurado, é o quadro exposto para que qualquer um enxergue e lamente. A ausência da crítica qualificada exigirá um distanciamento histórico muito maior para que possamos identificar as obras que permanecerão. O período de decantação, termo usado por Antonio Cândido, se tornou agora incalculável. A observação da produção literária atual está nas mãos de YouTubers festivos, de intelectualoides amadores, de blogueiros frenéticos etc. Nenhum demérito nisso, o problema está na falta absoluta do contraponto intelectual. Não há mais um Merquior em evidência, um Sérgio Millet, um Antônio Cândido, um Álvaro Lins e por aí vai. Tudo parece banal. A crítica desamparada dos esclarecidos, é exercida pelos incompetentes — vaticinava Machado de Assis em tempos remotos.

As tais feiras literárias, como ressaltou Ivan Junqueira na mesma palestra, resultam em espaços de deslumbramentos, de culto à personalidade, características que não se refletem de forma expressiva no crescimento qualitativo e numérico do público leitor. A promoção febril do autor à celebridade corrompeu a escrita, corrompeu a literatura. Quando os filtros se resumem aos prêmios arcaicos e apadrinhamentos midiáticos, o funil não é mais rigoroso, é mais injusto. A literatura como arte vai sendo substituída como ferramenta de copywriters, foi a melhor definição que encontrei para a atual paisagem.

Somos poucos leitores qualificados. Sempre fico com a sensação de que a maioria dos que se exibem como leitores são leitores parciais, com poucas obras lidas na integralidade ou com a devida atenção que elas exigem. Quando testemunhamos a fragilidade da nossa formação intelectual (não a acadêmica), essa constatação parece saltar aos olhos. Com os reveses na cultura e na educação promovidos pela alternância política, vamos retrocedendo mais do que avançamos. Gosto de dizer aos meus colegas que eles são best-sellers se encontram um mísero leitor atento no meio deste oceano de milhões de escritores.  A escrita é a arte que mais se vulgarizou por conta das facilidades tecnológicas, o que talvez explique o empobrecimento crítico dos leitores. Por enquanto, fica difícil afirmar que dias melhores virão.

Um comentário

  1. Judiciosa avaliação, Coslei. Mas não me assustam os períodos como este… Talvez eu aposte em improváveis cenários futuros, com base nos discretos movimentos que tem ocorrido em favor das artes, principalmente nas periferias e rincões.

    Das ruínas, dos escombros sempre se ergue algo melhor… Eis, novamente, minha aposta.

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