Escrever para quê?

A panelinha da ABL

Se no Brasil ainda existissem espaços na grande mídia que não iluminassem somente apadrinhados, compadres e uns poucos privilegiados, talvez o meu livro chegasse longe; se no Brasil a grande mídia contratasse tantos críticos de arte quanto contrata colunistas políticos, poderiam dizer que apoiam a cultura; se esses críticos fossem competentes e enxergassem além do horizonte visível, talvez o meu livro fosse mais avaliado. Fazer literatura é um ato de fé, é acreditar em algo que não existe neste país destroçado e provinciano.

No Brasil, faz sucesso o que vem de fora, o que é premiado fora, o escritor que mora fora do Brasil. Por aqui, ganha prêmio de academias quem divulga a literatura no exterior, um exterior que despreza a nossa literatura. O escritor brasileiro acha o máximo ser traduzido, mesmo que no Brasil nem sequer tenha sido lido por um número relevante de leitores. Querem a Europa a América do Norte, escrevem em português porque não há outro jeito. Colonizados impudicos que reverenciam orgulhosos os seus colonizadores. O meu livro não, o meu livro tem raízes onde deveria ter, em personagens que respiram a minha cidade, a realidade que me rodeia. Se no Brasil existissem editoras de porte que realmente se interessassem por livros, eu não precisaria ter criado uma editora alternativa para distribuir o meu trabalho como um caixeiro viajante.

Quando olhamos as Academias de Letras, essas províncias chiques que parecem refletir tudo, menos a realidade de um escritor, pensamos em qual o sentido de se fazer literatura. Não há sentido, mas criar literatura nos ajuda a pensar, a enxergar essas províncias ridículas, esses feudos da high life, nos obriga a ver as minúsculas vaidades. Se temos poucos leitores, fica mais fácil compreender que a literatura brasileira visível, tirando-se poucas exceções, é um feudo da elite. Vejam a Academia Brasileira de Letras e os seus salamaleques eleitorais. O que deveria ser a casa do escritor, fica parecendo uma conquista do jogo Banco Imobiliário.

É inevitável escrever pensando em ser lido, mas neste Brasil da fome, da miséria, da desigualdade social e dos escandalosos privilégios, convém afastar rápido esse pensamento ou há o risco de desistir da obra antes de terminá-la.

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