A prisão do peripatético

Enfurnados em casa ou desamparados nas ruas, estamos todos preferindo o cárcere privado à exposição que pode causar consequências imprevisíveis. Nosso carcereiro é um vírus que nos confrontou com a perspectiva da morte, com a nossa fragilidade e impotência. A cada novo despertar, precisamos nos convencer que a ameaça é real, apesar de invisível.

A primeira vez

Início dos anos 90, Copacabana pulsava com toda a sua opulência erótica. Boates, galerias, bares, praças, a vida noturna no regime mais democrático que havia no Rio. Eu costumava despencar da Tijuca ao Posto 6 para caminhar, ver gente, entrar em algum botequim e algumas vezes conviver com a fauna mundana que habitava a Discoteca Help, na Avenida Atlântica. Lembro dessas noites como flashs de luz ofuscando meus olhos.

Os dias de chuva são os piores

Qualquer um irá considerar bizarro se eu disser que esperava cair nesta situação. É verdade, antecipei o meu próprio infortúnio e sabia quando ele começaria a se desenhar. Morre pai, morre mãe, a família se fragmenta, o desemprego, perde-se o pouco patrimônio, ganha-se dívidas impagáveis. Resta aquela que é o único acolhimento possível: a rua.

Rapapés

Há em todos nós um bajulador incontido e obsessivo. Porém, o brasileiro não é sabujo de qualquer um, é preciso que ele identifique algum lastro de nobreza que faça valer o esforço. Se olha para baixo, o brasileiro sente um irrefreável impulso de cuspir na cabeça da plebe; mas caso seja obrigado a olhar para cima, ele lambe os pés alheios com a saliva eufórica do cão que idolatra o dono.

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