Destroços

Quando abri a cortina, os raios de luz da manhã de outono invadiram o quarto, bárbaros conquistando um território inexplorado. Estico o corpo e as juntas estalam secas na dissipação da preguiça. Respiro fundo. Tudo igual num dia que será, provavelmente, idêntico ao anterior. Desde que o vírus alcançou o Rio, a rotina me remetia ao filme “Feitiço do Tempo”, em que o personagem de Bill Murray estava obrigado a reviver sem cessar todos os acontecimentos de uma mesma data.

A prisão do peripatético

Enfurnados em casa ou desamparados nas ruas, estamos todos preferindo o cárcere privado à exposição que pode causar consequências imprevisíveis. Nosso carcereiro é um vírus que nos confrontou com a perspectiva da morte, com a nossa fragilidade e impotência. A cada novo despertar, precisamos nos convencer que a ameaça é real, apesar de invisível.

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